Ok do you want something simple?

Ainda sobre a vinda Ed Sheeran

Devo confessar que me divertiu muito ver a cantora Carolina Deslandes defender a classe artística Portuguesa perante o sucesso estrondoso e indiscutível de Ed Sheeran, que esgotou não um, mas dois estádios da Luz. Foi fofinho mas isto da vontade e, em particular, das expectativas que os artistas Portugueses têm ou não, tem muito que se lhe diga. Em todo o caso, fica assinalado o "protesto" que espero, e vale para todos nós, se estenda a outros campos que também preocupam os músicos nacionais como a justiça fiscal, redução na burocracia contractual, melhor distribuição do dinheiro cobrado pela indústria nacional e organismos de coleta, e, claro, oportunidades de visibilidade idênticas para todos. Ficamos a aguardar.

Mas o que me interessa aqui falar, uma semana depois, é da predisposição psicológica que nos leva a reclamar do sucedido (120.000 bilhetes vendidos) que me parece revelar uma coisa que ninguém tem coragem de admitir: a incredulidade de muita gente perante este recordista de vendas, pouco habitual no nosso país. Normalmente, estes números, só estavam ao alcance de bandas ou cantores que, sendo diferentes de Sheeran, gozavam de uma reputação/longevidade muito mais forte e consensual perante a cena musical. Cena essa que também é formada não só pelas massas que foram à Luz, mas por todos os que trabalham na música, seja a fazê-la, a promovê-la ou a vendê-la. Nomes como os Stones, Pink Floyd, U2, Michael Jackson, Metallica (que tocaram este ano, no Restelo, 42.000 pessoas), e até bandas e artistas que não enchendo um estádio como Prince ou Depeche Mode, deixaram a sua marca na história dos concertos ao vivo em Portugal. Os Rammstein preferiram não vir a Portugal este Verão com a sua tour de estádios, isto apesar de terem batido o recorde de vendas na Europa com 800.000 vendidos em pouco mais que uma semana (!). Para não me esquecer dos Portugueses, ficam também registados os concertos de GNR e o primeiro Portugal ao vivo em Alvalade, nos anos 90, cheios de pessoas que foram não só por gosto musical, mas também por "orgulho" nacional. Eram outros tempos.

A grande diferença que só não nota quem não quer entre King Sheeran e os nomes acima citados, e que tem provocado a tal incredulidade, é sobretudo uma questão de credibilidade. Vejamos: todos os outros nomes são intocáveis. Ninguém se atreveria a duvidar de nenhum dos bilhetes vendidos por estes nomes para os estádios. Ninguém questionaria o talento de nenhum destes monstros sagrados e, acima de tudo, ninguém se chocaria se fosse um destes a vender 120.000 bilhetes. Com Ed Sheeran, mesmo que sejamos "muito fãs" como a Carolina, a coisa é diferente e seria bom se tivéssemos a coragem de admitir o nosso choque perante a popularidade deste ruivo e da sua guitarra. Esse choque provém, primeiro, das características espartanas dos seus concertos. Um homem, uma viola, canções. A tal simplicidade e principalmente a tal humildade que as novas gerações tanto apreciam. Sem estrilhos, sem muitos decibéis, seguro, limpo e civilizado. Sem muitos camiões, sem uma enorme pegada ecológica. Para o menino e para a menina. Para a família. Um artista completamente alinhado com o seu tempo e com a forma como se distribui, promove e ouve música em 2019, em sintonia total com a passividade do nosso mundo. Eddie vende um sonho, um rapaz fixe que podia ser namorada dos nosso filhos ou filhas, não vamos lá pela música, há coisas tão melhores, mas ninguém bate este rapaz que podia ser nosso vizinho, de tão bons modos, adoramos investir na modéstia.

Também nos falta a coragem para contrariamos as massas. Ou seja, tentem lá dizer que não gostam do Ed Sheeran e levarão de imediato com um justo "tomaras tu." Sinceramente, não tomara eu nada. Pessoalmente, não gosto do Ed Sheeran. Respeito, e como não, quem gosta e quem foi ver, mas eu não o acho nada de especial. Canções super-cliché, melodias batidas em todos os bares, letras adolescentes, uma péssima imagem, uma voz comum, composições tão, mas tão parecidas com a cartilha Pop que teve de acrescentar autores aos seus registos legais, de modo a não incorrer em processos de plágio. Há muita, mas muita coisa mesmo que afasta Ed Sheeran daquilo que eu considero "um verdadeiro artista". Podem-me chamar invejoso, estúpido ou snob, mas as 120.000 pessoas em Portugal, e as outras todas lá fora, não me farão mudar de opinião. Afinal gostar de música, não é gostar ou "entender" tudo, ao contrário do que se para aí apregoa. Música é individualidade.

Ou seja, o que a mim me faz confusão, não são os artistas Portugueses não encherem as salas que tocam, ou os estádios que não tocam, isso é normal e apontar culpas ao público é deveras infantil. O que me choca, é que este artista em particular, esgote os nossos estádios com este estilo de música e espetáculo, considerando isso mais preocupante na minha ótica do que saber como levar outra banda ou artista Português à "merecida" glória.

Se não ficou bem claro, não gosto mesmo do Ed Sheeran, nem do que ele representa. A imagem do bom rapaz a mim não me convence. Os Metallica são velhos e feios mas deixaram cá 40.000 € doados ao serviço Pediátrico do Hospital de S.João no Porto e tudo o que sobrou do seu imenso catering de produção, foi entregue à Refood. Podem não ter ganho a corrida aos bilhetes aos betinhos, mas deram uma cabazada em ação social. Uma coisa que é completamente estranha à voragem dos artistas novos e seus agentes, algo que lhes desequilibraria a ganância das contas maravilhosas que trazer um homem + viola (em vez de um palco gigante em fogo com uma língua a servir de avancé) permitem ao nível do lucro. Poupar no fogo de artificio enriquece o artista de várias formas, sem dúvida.

Sim, é verdade que há espaço para tudo na música. E que esta se divide e se concretiza numa espécie de mistura entre sorte e talento. Pois eu quando olho para o Ed Sheeran vejo muito mais um rapaz que ganhou uma espécie de lotaria, o euromilhões da simpatia pública, do que propriamente um ser cheio de talento, que se impôs apenas pela sua qualidade musical. Não. Ele é o rei dos humildes, da modéstia, esse é muito do seu talento, diferente das bandas acima citadas, um produto do seu tempo, só possível pela higienização total a que o grande público tem votado os artistas para que se tornem exatamente no mesmo produto que Ed Sheeran: grande mas inofensivo, totalmente conforme ao gosto dos seus muitos clientes.

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