Onze contra onze

É verdade, irónico, triste, mas factual: a "Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão" foi escrita em língua francesa e assinada em Versalhes em 1789. O documento resume o legado mais visível e intemporal dos valores que a revolução do iluminismo ainda hoje projeta: o fruto embrionário da "Declaração Universal dos Direitos Humanos", aprovada pelas Nações Unidas em 1948.

Das Declarações ao Catar foi um ápice de vergonha. Ou falta dela.

A história deste mundial já se sabe. Valeu de tudo. Suspeitas de votos comprados a algumas federações africanas, financiamento de estrelas de futebol para caucionarem a candidatura catari, e até o governo da pátria do iluminismo e dos Direitos Humanos está envolto numa nuvem de suspeição assombrosa, materializada na alegada compra inflacionada de um pacote de caças Dassault Rafale e no investimento salvador no PSG. Pelo meio, houve uns obstáculos, como a temperatura do verão no Catar ou diferença horária. Coisa de pouca monta.

A FIFA tudo contornou e agora temos um mundial pela hora de almoço e a acontecer a meio da época desportiva dos estados participantes.

E a FIFA tudo aceitou. Aceitou a imposição da Sharia num desporto que celebra a diversidade. E elogia uma organização responsável pela brutalidade com que trabalhadores, que puseram a festa de pé com o suor do seu trabalho, foram brindados. Mais violento, fecharam-se os olhos à morte de migrantes. E ainda pede que se batam palmas na festa.

Mas desta vez a sociedade civil não deixou passar. Criticou e questionou. Os políticos do mundo Ocidental tiveram de se explicar. Vão ou não? Compactuam ou não? Por cá também. O presidente da República e o primeiro-ministro viram-se forçados a explicar a sua ida ao Catar.

Para futuro, talvez fosse interessante que a FIFA definisse critérios transparentes de elegibilidade para que um Estado possa organizar um mundial de futebol, um desporto que deve refletir diversidade, competição justa, igualdade de oportunidades, enfim o coração do que reconhecemos como Direitos Humanos.

Isto talvez poupasse à Humanidade o risco de poder vir a assistir a uma candidatura da Coreia de Norte. E talvez servisse de escrutínio exemplar aos dirigentes da FIFA.

Ficávamos com o que amamos: uma bola, uma luta justa, onze contra onze, e o sonho de que tudo é possível.

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