Os cancros por diagnosticar

Atravessamos dias raros na nossa vida democrática e em nada se pode minimizar a relevância da reunião de hoje do Conselho de Estado, sem dúvida motivo obrigatório de qualquer análise do dia. Muito menos se pode admitir a relativização da importância dos anúncios que Marcelo Rebelo de Sousa reserva para o país. Hoje o tema da dissolução da Assembleia da República estará sobre a mesa do Conselho, mas é do presidente da República a competência exclusiva para marcar a data das eleições, com todas as implicações que isso tem para as prioridades do país e para as questões internas dos principais partidos à Direita.

São temas com lugar cativo em todos os noticiários e colunas de opinião. Mas há outros, igualmente urgentes, a exigir a atenção de decisores e meios de comunicação. E a exigir, sobretudo, que não corramos o risco de vir a ter um país em stand by, ou com discussões sectoriais remetidas para segundo plano, já que a crise política recentra inevitavelmente os holofotes mediáticos.

Foi hoje apresentado um novo estudo do "Movimento Saúde em dia", que junta a Ordem dos Médicos e a Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares à farmacêutica Roche. Baseada em dados oficiais publicados pelo Ministério da Saúde, a análise estima que tenham ficado por diagnosticar pelo menos 4422 cancros no período da pandemia. Trata-se, obviamente, de uma projeção feita a partir dos rastreios não realizados no último ano e meio. Houve uma redução de 18% nas mamografias efetuadas, em relação a 2019, menos 13% de rastreios ao cancro do colo do útero e menos 5% ao cancro do cólon e do reto.

As taxas de incidência destes cancros diminuíram, o que seria positivo se fosse credível e não um sinal das falhas no seguimento da população. A doença progride silenciosamente, sem ser identificada. Cada caso invisível é um doente em que o tratamento não é iniciado, com previsíveis efeitos na gravidade e na mortalidade.

O retrato em oncologia é apenas uma amostra de um quadro mais vasto de redução da atividade assistencial presencial. Este ano essa atividade subiu quando comparada com 2020, mas está ainda aquém de 2019. Nos dois últimos anos, terão ficado por realizar 14 milhões de consultas presenciais nos centros de saúde e 2,8 milhões de contactos com os hospitais (consultas, cirurgias e episódios de urgência).

São números que falam de um país com tanto por fazer e recuperar, que esteve paralisado em muitos setores devido à pandemia mas precisa agora de redobrar a capacidade de resposta. O Governo mantém-se em plenitude de funções, com toda a responsabilidade que isso implica. E compete-nos manter um elevado nível de exigência em relação às políticas seguidas para recuperar o país. Até porque é precisamente isso que estará em causa quando, mais mês menos mês, formos chamados às urnas.

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