Os ciganos, afinal, não pensam todos por igual?

Sobre racismo, o tema que concorre na discussão pública com o dos números da Covid-19, queria oferecer ao deputado do Chega, André Ventura, as declarações de Ana Faneca, proferidas ao Jornal de Notícias.

Quem é Ana Faneca, perguntará o leitor? Respondo com o título da peça de ontem do JN a que me refiro, que descreve a jovem de 24 anos assim: "Aluna cigana de 17 valores está a tirar Direito e quer ser juiz".

Perguntada sobre o problema do racismo contra ciganos, Ana Faneca responde desta forma à repórter Alexandra Barata: "Grande parte da etnia está malvista, por um lado, porque as pessoas são racistas e, por outro lado, há um grande problema dentro da comunidade cigana, porque não se quer integrar".

Ana Faneca não é a única cigana da família a tirar um curso superior: segundo o jornal, os pais sempre incentivaram os quatro filhos a estudar e uma irmã de Ana também tirou o curso de Direito.

"Se não fossem os meus pais, não tinha conseguido tirar o curso, porque as propinas são muito caras", explica, reconhecida, a estudante, para, a seguir, adiantar: "Não vejo muitos ciganos com a mentalidade do meu pai. É muito aberto, quer que sejamos mais cultos e que tenhamos acesso a tudo aquilo que ele não teve."

E Ana Faneca conclui dando-nos esta opinião sobre a comunidade cigana, de que faz parte e na qual afirma que se integra com respeito por todas as tradições: "Tem de haver uma evolução de dentro para fora."

As frases claras e objetivas de Ana Faneca mostram, em primeiro lugar, que não é possível a uma cigana ignorar que no resto da sociedade existe um preconceito, uma desconfiança, um racismo contra os ciganos.

Em segundo lugar, a Ana identifica as dificuldades dos ciganos em integrarem-se, em aceitarem a evolução dos tempos, em adaptarem-se aos modos de vida que se impuseram no quotidiano atual.

Mas, em terceiro lugar, vem a frase mais importante de Ana Faneca e que repito: "Tem de haver uma evolução de dentro para fora."

Esta frase, de puro bom senso, é uma chicotada no discurso de todos aqueles que, como André Ventura, fazem dos ciganos um tema de campanha política, ignorando o que os próprios ciganos pensam, desprezando a diversidade de pensamento que certamente os ciganos têm, fazendo tábua rasa do próprio debate político e social que com certeza os ciganos fazem entre si, por exemplo, sobre o papel das mulheres na sociedade.

O discurso discriminatório dos ciganos, para além de excluir à partida qualquer hipótese de respeito e aceitação de uma cultura ou, sequer de partes de uma cultura distinta, recusa dar espaço e tempo aos próprios ciganos para eles fazerem a tal evolução de dentro para fora - a única transformação que, se for desejo dos próprios, terá hipóteses de corresponder a uma modificação generalizada e duradoura.

No Diário de Notícias deste fim de semana o autor de um livro sobre o Chega, Riccardo Marchi, diz que André Ventura usa o tema dos ciganos porque "lhe garante a visibilidade nacional".

Segundo Marchi, "quando André Ventura disse que temos de confinar as comunidades ciganas, é evidente que ganhou as primeiras páginas dos jornais" e será por isso, apenas para garantir essa presença mediática, que o líder do Chega se atira tantas vezes aos ciganos.

Ana Faneca, a cigana que um dia será juíza, demonstra, de forma clara e simples, que o preconceito e paternalismo sobre os ciganos não serve para nada se os próprios ciganos não quiserem, como ela disse, "evoluir de dentro para fora". E a educação e o acesso à cultura, como o exemplo da sua família claramente demonstra, é o verdadeiro caminho por onde essa mudança pode começar.

Mas, para isso, segundo a teoria de Riccardo Marchi, não podemos contar com André Ventura, porque reivindicar mais acesso à educação para os ciganos não é coisa que lhe garanta espaço mediático...

E, já agora, será que André Ventura, o jurista, alguma vez pensou ver uma cigana ser juíza nos tribunais portugueses?

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