Os problemas e as consequência do discurso identitário de Joacine

Joacine Katar Moreira fez da sua identidade o seu principal propósito político. Votar Livre era votar para eleger a primeira mulher negra no Parlamento. Foi a entrada do discurso identitário no nosso panorama político.

Sucede que o discurso identitário, nomeadamente aquele que tem sido utilizado por Joacine Katar Moreira, é insuficiente, discriminatório, perigoso, e descredibiliza a luta contra a discriminação.

Insuficiente. Como se tem visto, a identidade é absolutamente insuficiente como programa político e capacidade parlamentar. O facto de Joacine Katar Moreira ser a primeira mulher negra no nosso Parlamento (acabou por não ser, no sentido em que foram eleitas três) não impediu a sucessão de erros e polémicas e episódios e desentendimentos e até demissões no seu próprio partido.

Como é evidente, ser mulher negra - como aliás ser pessoa, seja de que etnia for - não é garantia política de coisa alguma: não é garantia de que a pessoa defende coisas certas, que o saiba fazer com inteligência e sensatez, que o saiba fazer na predisposição para consensos, que o consiga fazer apresentando as reformas adequadas.

Discriminatório. A única coisa que garante a igualdade entre todas as pessoas do planeta é a sua condição de pessoa. Quando se é pessoa, tem-se toda a legitimidade e toda a dignidade do Mundo: não há nada mais acima disso, nem nada mais que possa somar-se a isso. Sendo todos pessoas, e tendo todos essa dignidade, nenhum é superior ou inferior a ninguém: somos todos iguais: sou igual a ti, não por ter nascido no mesmo sítio que tu, ou ser da mesma etnia do que tu, ou ter a mesma orientação sexual do que tu - mas porque sou pessoa como tu.

Quando se exalta uma característica identitária há sempre uma vocação excludente, que é muitas vezes indesejada, mas que é a sua consequência, já que não é possível afirmar uma identidade sem recortar a realidade. Veja-se que Joacine Katar Moreira desconsiderou em absoluto a presença de Helder Amaral no Parlamento. Era um deputado negro, mas isso não interessava nada, porque era homem. E sendo homem não se integrava no conceito de mulher negra. Que sentido isto faz, sobretudo tendo em conta que podemos sempre encontrar novas identidades dentro da identidade? Da próxima vez pode ser alguém a desconsiderar Joacine e Helder, apresentando-se como primeiro candidato negro e [colocar aqui qualquer outra característica identitária].

Perigoso. Joacine Katar Moreira reagiu a muitas críticas de que foi alvo acusando os críticos de serem racistas ou de extrema-direita. Isto contamina o debate político, como se não pudéssemos criticar Joacine Katar Moreira, como se a sua ação política, as suas palavras e atos, não pudessem ser objeto de censura por si, pelo que valem.

Tem sido muito apontado, como exemplo deste absurdo perigoso, as críticas que Joacine fez a Daniel Oliveira, homem de esquerda, a quem a acusação de extrema-direita não poderia de forma alguma assentar. Mas esse não é o melhor exemplo. É que se Daniel é reconhecidamente de esquerda, e por isso o absurdo é evidente, se a crítica vier de alguém de direita, alguém até menos conhecido que Daniel, como é? Seria igualmente absurdo e perigoso mas provavelmente não seria tão evidente para a esmagadora maioria das pessoas. O perigo está aí, de estar a rotular e a censurar e a condicionar pessoas, impondo o medo de que possam vir a ser considerados como racistas ou de extrema-direita.

Descredibiliza a luta contra a discriminação. Existindo racistas e xenófobos e intolerantes em Portugal, a mensagem política da tolerância, da igual dignidade de todas as pessoas, da liberdade de cada um poder lutar pelo seu projeto de felicidade seja qual for a sua origem ou etnia ou orientação sexual, é fundamental e de radical importância. E precisa de ser feita, com vigor e consistência e seriedade e até com emoção.

Quando essa mensagem é de alguma forma apropriada por alguém, como fez Joacine, que quis confundir-se com a mensagem antirracista, chegando a insinuar que por fim tinha chegado a esquerda antirracista ao Parlamento, como aquela que lá estivesse o não fosse, é natural que a mensagem siga a sorte do mensageiro. Ora, se há coisa que Joacine não tem conseguido fazer é credibilizar a mensagem, fazê-la passar, imersa em lateralidades que não ajudam nada e que a descredibilizam. E há discriminação em Portugal, e intolerância e racismo, e a mensagem da tolerância não pode ficar refém do desnorte de uma deputada que chamou a si esse discurso e que quis confundir-se com ele. Infelizmente, os inimigos da tolerância e liberdade não resistirão a aproveitar-se disso.

Patrocinado

Apoio de

Patrocinado

Apoio de

Outros Artigos Recomendados