Os russos em Lisboa e um monte de absurdos

Seria um absurdo considerar que Fernando Medina enviou intencionalmente para a autocracia russa os dados de ativistas, no sentido de os ajudar a identificar os que lutam pela democracia contra o regime do senhor Putin. De igual forma, seria um absurdo considerar que foi intencional o envio de informação sobre manifestações que punham em causa a política de Israel nos territórios ocupados da Palestina. Mas não é nada absurdo, bem pelo contrário, assumir que a Câmara de Lisboa sabia que estes procedimentos existiam, eram assumidos e justificados pelos serviços. Demitir Medina a poucos meses das eleições seria igualmente um absurdo, porque, do ponto de vista legal, até ver, não há nenhuma razão que se conheça para a perda de mandato e, do ponto de vista político, esse julgamento vai acontecer entre setembro e outubro.

O que sabemos, sem nenhuma margem para dúvidas, é que a Câmara de Lisboa violou de forma persistente e declarada a lei de proteção de dados, com a agravante de ter denunciando ativistas que lutavam pela democracia nos seus países. O absurdo maior nasce da constatação de que aquilo que se passou é grave, muito grave, pode ter consequências para os ativistas e para as suas famílias, mas não tem nenhuma consequência na Câmara de Lisboa. Quer dizer, Medina garante-nos que os procedimentos foram alterados e que não volta a acontecer. Mas nós conseguimos perceber que, no limite, esta delação dos ativistas russos já não devia ter acontecido, porque já deviam ter aprendido quando, em 2019, ativistas pró-Palestina pediram explicações à autarquia pelo envio de informação para embaixada de Israel, sobre uma manifestação em frente ao Coliseu de Lisboa. E, se voltou a acontecer agora, pelo caminho, quantas mais vezes aconteceu?

É também, por isso, absurda a presunção de que se tratou apenas de um erro. Um erro resulta de fazer de forma diferente aquilo que, por força das regras existentes, se faz de forma correta. Ora, o próprio Medina justifica o que se passou, alegando que sempre foi feito assim. E nós presumimos que ele sabia, porque ele nos dá o seu próprio exemplo dos tempos de estudante.

Medina pediu desculpa, fez bem. Num país onde morrem dezenas de pessoas em incêndios por incúria do Estado e ninguém se digna a pedir desculpa públicas aos familiares, ter um político a assumir a responsabilidade já é um avanço. Se este caso dos russos em Lisboa, pela gravidade que transporta, vai ou não ter consequências eleitorais é coisa que os lisboetas vão ter de decidir no início do outono. O assunto entrou na campanha e Fernando Medina ainda tem muita coisa para explicar.

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