Mais Opinião

Rodrigo Tavares
Rodrigo Tavares

Sobre a Covid-19 e o fim da privacidade

Dizem os constitucionalistas que as magnas cartas de cada país são um orifício através do qual é possível espiar a cultura de uma nação. Falemos então de privacidade. A Constituição brasileira afirma que "a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas" são invioláveis. A de Singapura negligencia o tema. A de Portugal sublinha a importância da "privacidade familiar." Na maioria dos países ocidentais, a privacidade foi elevada a um direito fundamental, consignado na Declaração Universal dos Direitos Humanos. O eu, murou-se contra todo o tipo de ameaças externas ao individualismo.

Paulo Baldaia
Paulo Baldaia

Os efeitos colaterais do combate à Covid 19

Quanto mais avançamos no tempo em que estamos confinados, mais se torna necessário olhar para os efeitos colaterais do combate que travamos contra esta pandemia. Como estes efeitos são cada vez maiores e mais evidentes, o Governo tem de ponderar seriamente um regresso rápido ao trabalho da maioria de portugueses que for possível. Maio é a luz ao fundo do túnel. Por mais pequena que seja essa luz, vai ter de significar um aligeirar das medidas do estado de emergência no final do mês.

José Cutileiro
José Cutileiro

Outra vez a Avó Berta

E desta vez reparo, pela primeira vez, que chamávamos ao Avô o Avô Pires. Menos ternura ou mais respeito? Por outras palavras, posição subalterna da mulher? Não creio que a Avó Berta pensasse em coisas assim. Governava ela a casa - no tempo da Grande Guerra com cinco tostões por dia, gabava-se, que era monárquica como o Avô e não gostava da maneira como a república tinha desbaratado as finanças, tirando o Afonso Costa mas esse era jacobino - três criadas e o criado velho que me levava e trazia da escola da D. Maria Prego (até eu ter negociado com ele, no segundo dia, largar-me e trazer-me só até à Praça do Giraldo, por vergonha dos meus condiscípulos), a Inocência, mulher de mandados, mãe de Etelvina que se entretinha comigo em furores adolescentes e morreu tuberculosa, que a mantinha ao corrente das idas e voltas do Avô à casa que ele pusera à amiga quando começara a enriquecer. Em Évora havia poucos ricos ricos, como dizem os espanhóis, mas havia vários ricos sólidos, herdados. Algumas casas mostravam legendas discretas, de metal sobre alvenaria de pedra, pintadas por cima, rezando "Os que podem aos que precisam". O Avô ainda não tinha lá chegado quando começara a arruinar-se.

Inês Cardoso
Inês Cardoso

Ver luz ao fundo do túnel sem criar uma segunda vaga

Nos últimos dias não falamos de outra coisa: todos queremos ver a "luzinha ao fim do túnel", para usar a expressão de Marcelo Rebelo de Sousa, e cresce a ansiedade por retomarmos alguma normalidade. Alguma, porque já todos percebemos que as rotinas e hábitos sociais que tínhamos não poderão ser retomados de imediato nem há um ponto mágico em que voltamos à nossa vida pré-pandemia. O retomar da atividade será faseado e não existem respostas, nem sequer aproximadas, para a altura concreta em que isso irá acontecer.