Para uma ecologia das expectativas

Não vale a pena ignorar que o ambiente será um dos pontos chave de muitas das decisões que se tomarão no futuro, não só nos encontros de líderes mundiais como também a nível nacional, nomeadamente nas legislativas em Portugal, em Outubro. Não cabe nesta opinião ajuizar da procura pela maioria parlamentar, ou introduzir outras visões, de foro cientifico e estatístico que contrariam o clima de emergência climatérica, decretado, por exemplo, no nosso país aquando da greve dos motoristas de matérias perigosas. Apenas verificar a centralidade das politicas amigas do ambiente.

O tom, esse, está mais que instalado. A Comunicação Social, as redes, o cinema, as peças de teatro, a música, as gentes, não falam de outra coisa e quem desprezar o poder desta preocupação popular irá perder votos. Outros, à boleia deste "surto" de ecologia irão ganhar terreno mesmo sem se saber o que resultará de diferente ou de concreto caso esta ou aquela ideia ambiental se imponha na definição do resultado final das eleições. Seria oportuno, no entanto, aproveitar para cristalizar e informar acerca de uma noção responsável e comum de ambiente, evitando, o mais possível, os exageros, os negócios e a desinformação que, muitas vezes, não permite uma leitura clara dos factos, como no caso das minas de lítio que vieram agora à ordem do dia.

Outro aspecto essencial nas preocupações populares é o lazer. Os trabalhadores tem direito a um período consagrado às férias mas cada vez mais, por circunstâncias do mercado de emprego e das leis laborais, temos uma massa trabalhadora cada vez mais cansada e, pior, cada vez mais desesperada pela necessidade de ter experiências que lhe tirem não só o corpo mas também a cabeça do "manifesto". Apesar disso, a "democratização" das viagens de avião tem causado mais problemas e momentos de pânico aos passageiros do que propriamente assegurado uma transição tranquila até ao el dorado pelo qual pagaram, usando o subsidio de férias. Os aeroportos rebentam pelas costuras, o mês passado estiveram 230.000 voos no ar em simultâneo num só dia, há famílias a dormir no chão, passageiros à luta, convencidos ainda da exclusividade e prioridade que, noutros tempos, existia nas viagens de avião. Um cenário, por vezes, desumano, provocado, sem dúvida, pela proliferação das low-costs que baixaram tanta a fasquia, que arrastaram as boas companhias com elas. Entupiram rotas e contrataram jovens, dando-lhes apenas o mínimo da preparação e fazendo deles os peões de um jogo em que tudo vale para vender mais um centímetro de legroom. Tudo isto sob uma capa quase prometaica, que trouxe o fogo das viagens aos mortais, mas que, na verdade, abusou das suas expectativas para lhes prestar um mau serviço.

Outra consequência de que se vai falando é da enorme pegada ecológica deixada pelo aumento insano dos voos comerciais. Provavelmente ainda não tem a gravitas que merece, porque acontece num período de intensa dinâmica entre oferta e procura, com ratios de lucros muito apetecíveis para companhias outrora deficitárias. Por outro lado, o sonho de viajar, de sair daqui para fora nem que seja por uns dias, nunca foi tão urgente nas pessoas que murcham todo o ano agarradas a um computador. Uma tempestade perfeita e só por isso, um fenómeno que causa alta turbulência quer ao utilizador quer ao ambiente por irmos à EuroDisney ou à República Dominicana.

Introduzir este factor, encorajar as pessoas que não tem de viajar em trabalho para descobrirem outros destinos (porque não o Douro, o Alentejo, o interior?) e assim pouparem a logística da aviação que está no limite, reduzindo a poluição ambiental e o stress do viajante, seria algo bem mais importante para mim ver escrito num plano de trabalho de um partido candidato à Assembleia, do que as citações apressadas ao plástico nos oceanos e outras coisas que já se tornaram vulgares.

Salvar o ambiente ou pelo menos tomar esse caminho implica fazer escolhas sérias que são sempre difíceis. Trazer até ao eleitorado questões como os exageros das viagens, do turismo e ajudá-los a como bem aplicar o seu lazer e o seu dinheiro também é fazer politica no sentido de traduzir os problemas por partes para que todos possamos fazer parte de uma solução. É necessária também uma certa ecologia das expectativas e para isso temos de as entender primeiro, porque é aí nesse campo que se jogam não só os votos mas as decisões mais importantes que as pessoas fazem e que lhes ajudam a dar rumo à vida.

(O autor escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico)

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