Páscoa: renascer das cinzas

Para nós os católicos, estes são dias de significado e vivência intensa. Dias de alerta, de comunhão e de esperança.

Quando vivido na sua plenitude o tempo pascal pode ter um efeito bastante revigorador, desde logo com a energia que nos vem de olhar o sentido de um tempo de passagem da morte à vida. De renascer das cinzas...

Ora, olhando à realidade internacional que nos entra pelos olhos e pela alma nos últimos dois meses, fica-me a pergunta de como será possível renascer das cinzas depois de tanta destruição.

E mais ainda como é possível que tamanha destruição seja um objetivo?...

Não sendo naif percebo, naturalmente, os interesses por detrás de tamanho braço de ferro, mas não consigo entender as vidas e as histórias humanas que se arrastam na procura de objetivos políticos ou economicistas. Muito menos nesta dimensão incompreensível e objetivamente negativa e perversa.

Não deixa de ser simbólico que a Pascoa tenha sido nos últimos dois anos o momento em que, confinados, vivemos acontecimentos marcantes e todos eles transformadores. Estamos a viver intensamente, na Europa, e no Mundo, momentos de uma verdadeira Páscoa, mas a minha questão é se estaremos a viver verdadeiramente a passagem da morte à vida.

Nos últimos dias recebemos na rede Cáritas a notícia da morte de duas colaboradores da Cáritas na Ucrânia. Refugiaram-se num centro de atendimento, com as suas famílias, para fugir a um bombardeamento. Não há espaços seguros ou salvaguardados. Aquilo que vamos assistindo é um sucessivo ultrapassar de limites. Como vamos renascer disto?

Longe de mim perder a Esperança. É ela que nos motiva em tudo e em todos os momentos. É nela que acreditamos. É ela a nossa Páscoa. Para que a esperança não seja uma ideologia ou uma utopia que alguns perseguem, temos de saber exatamente quem somos e que passos queremos dar.

Uma coisa é certa, aquela ideia de que a humanidade teria chegado a um patamar de evolução caiu por terra nos últimos meses. Quantos de nós julgávamos possível que a Europa evoluída do seculo XXI se iria abrir numa violência rasgada com tal frieza? A fragilidade da humanidade não pode deixar de estar na equação da nossa identidade.

O que nos faz diferentes dos bárbaros? Esta é a pergunta.

Pode parecer não fazer sentido, porque nos achamos sempre do lado do bem... mas o que nos faz diferentes será sempre a capacidade de nos colocarmos fora de nós e de nos deixarmos olhar pelos olhos do outro. Colocar-nos em causa, aferir olhares, ações e propósitos. A verdade e o bem estão algures na síntese de todas as "razões"... nos argumentos que fazem sentido quando colocados

em causa. Só neste equilíbrio estaremos em condições de abrir o nosso pensamento, a nossa inteligência, e de abrir as frentes do diálogo. A capacidade de dialogar, de reconhecer o erro e, depois então, de recomeçar... esta é a nossa Páscoa e isto não é um exercício de humanidade. Só com este equilibro seremos capazes de encontrar a coerência, as estratégias, as políticas, os planeamentos e os discursos certos para o Bem Comum. E ainda assim assumir que podemos estar errados e por isso precisamos continuar a escutar e a ver para além do óbvio.

Uma coisa eu acredito ... Quem irredutivelmente se acha dono da verdade absoluta, sem disposição para ver mais longe ... que entende a destruição e a morte como solução, escolheu o caminho mais fácil para destruir a esperança e terá dificuldade em renascer de tempos cinzentos ou de cinzas.

Eu vivo este dia com esperança. Feliz domingo de Páscoa para todos.

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