PCP e BE aprenderam com o PEC IV? Sim.

Daniel Oliveira defende que o Partido Comunista Português (PCP) e o Bloco de Esquerda (BE) aprenderam com o passado e que os dois partidos poderiam já estar "enterrados" se tivessem dado carta branca ao Partido Socialista (PS) no passado.

No espaço de comentário que ocupa semanalmente na TSF, Daniel Oliveira lembrou como, em 2011, o chumbo do Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) IV de José Sócrates só teve consequências realmente negativas para o PS, e não para os partidos de esquerda que se recusaram a viabilizá-lo - com a convocação de eleições legislativas, que os socialistas viriam a perder para o PSD.

"Sócrates decidiu ir a votos porque achava que a dramatização lhe devolveria a maioria absoluta. Perdeu as eleições", recorda o jornalista. "Estas dramatizações raramente resultam em vitórias de quem as faz", frisa, notando que, na altura, o PCP até manteve a votação e que o BE passou para metade.

Duvidando de que a viabilização dos "pacotes de austeridade de Sócrates" evitassem a intervenção da troika que acabou por chegar, Daniel Oliveira coloca em questão, contudo, o que teria sido do PCP e do Bloco de Esquerda se tivessem deixado passar os planos de Sócrates.

"O que valeria hoje o PCP? O Bloco ainda existiria?", questiona o comentador, que acredita que a aprovação do PEC IV teria sida "trágica" para os dois partidos e teria tido "efeitos estruturais e dramáticos em todo o sistema partidário à esquerda", que acabariam "numa crise do regime".

Quatro anos após a "suposta lição que os partidos mais à esquerda deveriam ter aprendido", nota Daniel Oliveira, o Bloco de Esquerda "voltou a dobrar a sua votação, conseguindo o seu maior resultado de sempre em legislativas, e o PCP ainda subiu mais um pouco". "Ficaram suficientemente fortes para que a "geringonça" nascesse e conseguisse reverter em dois anos o que a troika tinha imposto", reforça.

Para o comentador, a lição aprendida pelos partidos à esquerda foi que quem toma "decisões determinadas pela pressão do momento" tende a "ter um futuro curto". Que, "ao tentar evitar crises políticas circunstanciais e inevitáveis, correm o risco de alimentar crises de regime - e são essas que dão lições definitivas. Geralmente, tarde demais para serem aprendidas", afirma.

Admitindo que há culpas partilhadas por todos os partidos de esquerda na atual crise política, Daniel Oliveira sublinha que estas "são proporcionais ao peso e responsabilidade de cada um". E que apesar de todos estarem "a concentrar-se no último mês, esta história já leva dois anos".

"Esta crise começou em 2019, quando o primeiro-ministro decidiu que não queria qualquer compromisso de legislatura com os partidos à sua esquerda. Que queria ser livre para governar em minoria, achando que Bloco de Esquerda e PCP estariam obrigados a falar com ele apenas uma vez por ano, para lhe aprovar os orçamentos", ressalta o comentador.

"António Costa governa há seis anos porque Bloco de Esquerda e PCP o permitiram e há dois anos que governa sem qualquer acordo escrito porque não o quis assinar", frisa. "Foi uma escolha sua. Se tivesse sido diferente, não estaríamos hoje nesta situação. Chegados a ela, é o partido que governa sozinho que tem de conseguir os entendimentos que lhe deem a maioria que não tem."

Na opinião de Daniel Oliveira, Costa escolheu substituir a "geringonça" pelo "pântano", assente na "vontade de liderar pela tática".

A situação atual é, por tudo, "muito diferente de 2011", pelo que, defende Daniel Oliveira, "não vale a pena chamar ao debate lições que são bem diferentes do que julgam os que querem recordar o PEC IV".

"O que essas lições nos dizem é que BE e PCP poderiam estar hoje enterrados se se tivessem entregado a dois anos de austeridade liderada por um homem como José Sócrates. E não é certo que o país estivesse melhor", conclui.

Texto: Rita Carvalho Pereira

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