Portas devia ouvir o que diz Schwarzenegger?

Diante de uma fotografia do alucinado com um chapéu com cornos que andou a mostrar-se a todas as câmaras de vídeo que filmaram a invasão do Congresso norte-americano, Paulo Portas disse ontem à noite, numa conversa com José Alberto Carvalho, na TVI, o seguinte:

"Para mim, são 'okupas'. Aquilo que se passou à frente do Capitólio é como aquelas pessoas que acham que podem invadir a propriedade alheia".

Comparar movimentos que, mal ou bem, ocupam pacificamente edifícios abandonados e degradados com aquelas pessoas em Washington que andaram aos tiros no parlamento e provocaram cinco mortes parece-me, para ser comedido, bastante infeliz.

Mais adiante, ainda com a imagem da mesma fotografia em fundo, encimada pelo título "as "massas revolucionárias" (e digitais) de Trump", Portas atirou mais uma seta venenosa para o lado esquerdo do ideário político: "Eu só pensei na Revolução Francesa quando vi aquilo: aquele conjunto de assombrados... oiça, de gente que acha que é normal entrar pela casa máxima da democracia..."

Comparar o Palácio de Versalhes do rei Luís XVI com uma casa de democracia é absolutamente extraordinário e deve deixar irritados muitos franceses, que se orgulham da sua Revolução e a contam como sendo o início da democracia moderna no mundo.

Parece-me, no entanto, que Paulo Portas (como muitos comentadores de direita) está tão preocupado em livrar a sua família política da hipotética cumplicidade e condescendência para com Donald Trump, que procura propositadamente comparações com uma linguagem "esquerdalha" para dar ao movimento, que mobilizou muitos milhares de apoiantes do ainda presidente norte-americano, um cariz e um embrulho ideológico que ele, manifestamente, não tem.

Encontrei, também ontem à noite, um outro político, membro do mesmo partido de Donald Trump, que não esteve com malabarismos de linguagem ideológica para caracterizar os incidentes de quarta-feira.

Este político norte-americano não comparou a invasão do Congresso dos Estados Unidos à Revolução Francesa, não a comparou com movimentos inorgânicos semi-anarquistas ou anticapitalistas, não levantou papões comunistas ou socialistas.

Arnold Schwarzenegger, imigrante austríaco, culturista, Exterminador Implacável e bárbaro Conan no cinema de Hollywood, antigo governador do estado da Califórnia pelo Partido Republicano, não hesitou e comparou no Twitter os vidros partidos nas janelas do Capitólio com a Noite de Cristal com que, em 1938, na Alemanha e na Áustria, os nazis atacaram os judeus.

Schwarzenegger explicou claramente, de uma forma emotiva, como as populações podem ser manipuladas e moralmente destruídas por lideranças obcecadas:

"Nasci por entre as ruínas de um país que sofreu a perda da sua democracia. Nasci em 1947, dois anos depois da Segunda Guerra Mundial. Cresci rodeado de homens que bebiam para ultrapassar a culpa da sua participação no mais terrível regime da história. Nem todos eram nazis ou antissemitas raivosos. Muitos deles foram apenas andando, passo a passo, por essa estrada. Eram os nossos vizinhos.

Nunca partilhei isto publicamente porque é uma memória penosa, mas o meu pai costumava chegar bêbado a casa, uma ou duas vezes por semana, e gritava, batia-nos, assustava a minha mãe.

Não lhe atribuo a totalidade da responsabilidade por isso, porque o nosso vizinho estava a fazer a mesma coisa à sua família, e a mesma coisa se passava com o vizinho seguinte.

Eu ouvi com os meus próprios ouvidos. Eu vi com os meus próprios olhos.

Eles estavam em sofrimento físico por causa dos estilhaços no corpo e em sofrimento emocional por causa do que viram ou do que fizeram.

Tudo começou com mentiras, e mentiras, e mentiras e intolerância.

Portanto, sendo da Europa, vi em primeira mão como as coisas podem escalar e ficar fora de controlo.

Sei que há medo, neste país e em todo o mundo, que qualquer coisa como isto possa mesmo vir a acontecer aqui. Eu não acredito nisso, mas acredito que temos de estar conscientes das terríveis consequências do egoísmo e do cinismo.

O Presidente Trump tentou virar os resultados de uma eleição, de uma eleição justa. Ele tentou um golpe enganando as pessoas com mentiras.

O meu pai e os seus vizinhos também foram enganados com mentiras e eu sei para onde essas mentiras conduzem."

Quando Schwarzenegger diz "o meu pai e os seus vizinhos também foram enganados com mentiras e eu sei para onde essas mentiras conduzem" transforma o seu exemplo individual num alerta coletivo válido, que serve para os Estados Unidos e para países onde o extremíssimo de direita está a crescer.

Em Portugal, por exemplo, nesta campanha eleitoral para a Presidência da República, para a coisa não escalar um dia para uma invasão alucinada ao Parlamento, bem podíamos, em vez de apostar na baralhação ideológica, começar por aconselhar o voto seguindo um critério muito simples: recusar, à partida, o candidato que mais mente.

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