PSD: A derrota de um passado enfiado na sua bolha

Daniel Oliveira começa o seu habitual espaço de Opinião na TSF por afirmar que "a direita que domina o espaço mediático já está a mudar a agulha". "Há dois dias, Rui Rio era um estropício, incapaz de ganhar uma eleição, desastrado, fadado para ser uma muleta de António Costa. Não foi preciso esperar um dia para que se desse a cambalhota. Compreendendo que tinha esgotado os seus créditos, essa direita mediática virou-se do avesso."

O jornalista nota ainda que o Observador, que considera ser "uma das mais produtivas centrais de oposição a Rio, titulou na manhã de domingo: 'Rio continua de pé, Costa é o próximo a cair'", referindo que "o predestinado para a derrota passa, quando se torna impossível substituí-lo por alguém da direita mais pura, a ser um bulldozer". Isto porque "venceu as eleições internas, que já tinha vencido antes, e até tinha acabado de ter uma vitória relativa nas autárquicas que os comentadores de direita se encarregaram de lhe arrancar das mãos".

"A única diferença é que esta vitória de Rio, ao contrário das anteriores, é a poucas semanas da derradeira possibilidade da direita derrotar António Costa. E esta comunicação social, que é tudo menos mensageira ou observadora, não tem, por agora, mais cavalos em que apostar e tenta transformar aquele que há uns dias tratava como um imprestável pileca num por sangue invencível. Sem no meio dizer 'estávamos enganados'", explica Daniel Oliveira.

Para o jornalista, "fazem bem em não o dizer". "Porque não foi engano, foi desejo", atira. "Esta direita, que nunca venceria uma eleição sem ser no meio de uma crise, mas que se julga guardiã do templo, não achava que Paulo Rangel, derrotado em duas das três eleições europeias a que concorreu e em eleições internas anteriores, era um vencedor. Muito menos achou que Luís Montenegro viria a ser uma alternativa minimamente credível a António Costa", assinala.

"A luta não era pelo país, era pelo domínio da direita. Derrotados, resta respirar fundo e esperar que passe", diz, acrescentando que "uns acharão que serão mais eficazes com Rio no poder, sobretudo se ele estiver preso a um apoio tácito do PS e outros, menos astutos, acreditarão que a sua hora chegará depois de uma derrota de Rui Rio contra António Costa".

De qualquer forma, o jornalista defende que "vão continuar a andar por aí". "Na realidade, eles são uma boa parte do problema da direita portuguesa. Enfiados numa bolha política, não perceberam quase nada do que aconteceu entre 2011 e 2015".

Daniel Oliveira lembra que esse foi um tempo em que "os reformados foram especialmente massacrados, as famílias passaram por momentos dramáticos, e muitas das medidas deixaram marcas sociais, económicas e pessoais que duram até hoje". "E isso aconteceu num Governo que dizia que queria ir para além da troika. E que cumpriu. Tanto como a austeridade, a insensibilidade com que ela foi apresentada e imposta, deixou marcas profundas e também em muitos eleitores do PSD", sublinha.

"Desde então, uma parte desta direita deixou de compreender o seu próprio eleitorado e insiste no erro e na revisita permanente ao passado", refere, indicando que "não perceberam que depois de Sócrates, Passos é um dos mais tóxicos ativos da política portuguesa". Na opinião do jornalista, "aparentemente nunca o perceberão". "Talvez porque, ao contrário da maioria do país e de muitos militantes do PSD, não tiveram a experiência direta e vivida daqueles anos. Falam para a sua bolha. Muita gente de direita até pode acreditar que Passos não poderia ter feito diferente, mas esse não é um tempo que goste de recordar", admite.

De acordo com Daniel Oliveira, a questão não se prende com o facto de "se o PSD seguirá à direita ou ao centro". "Nem sequer estou seguro que Rio tenha um programa económico mais centrista do que o de Rangel", comenta o jornalista.

"As maiorias podem-se conquistar da direita ou da esquerda para o centro, ou do centro para as margens. Não faltam na Europa exemplos das duas coisas", explica, reforçando que "num país que vota tradicionalmente mais à esquerda, não é fácil vencer fora de uma grande crise a partir da direita". Contudo, na perspetiva de Daniel Oliveira, "se o líder for mobilizador e as circunstâncias forem as certas é perfeitamente possível".

"O que não é possível é vencer a partir do passado e do ressentimento. E essa é a agenda do passismo que se julga espoliado do seu direito divino a governar e tem, como D. Sebastião, um primeiro-ministro que a maioria do país associa a péssimas memórias", avisa.

"E desde Sócrates acreditam que vencem eleições dizendo que o PS é corrupto. Se mesmo depois de Sócrates, o PS está a cheirar uma maioria absoluta, não deviam já ter concluído que esse discurso não resulta? Que a maioria do país não faz a mesma generalização? Que não é a assim que mobilizam a maioria dos eleitores?", questiona o jornalista.

Daniel Oliveira defende que "a única coisa que o passismo sem Passos, mais uma vez, derrotado no sábado, conseguiu foi perder o PSD e dar material para a polarização política da direita que se vai balcanizando em pequenos grupos".

Para concluir, o jornalista afirma que "a maioria dos eleitores de direita que não está no centro, mas não procura uma polarização política que só beneficiaria a esquerda, apenas deseja que o PSD apresente uma alternativa". "Não querem um PSD que odeie o PS, querem um PSD melhor do que o PS. Até os militantes já o perceberam e derrotaram uma direita encalhada no passado", remata.

* Texto redigido por Carolina Quaresma

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