Que lentement passent les heures

Comme passe un enterrement.
Tu pleureras l"heure où tu pleures
Qui passera trop vitement
Comme passent toutes les heures.

Assim escreveu Apollinaire na cadeia, suspeito sem razão do roubo da Gioconda. O devagar depressa dos tempos, lembrou-nos Marcello Mathias, citando se não estou em erro já não sei que brasileiro. Tudo se vai num instante. Quando eu era pequeno, avó de amiga minha que me parecia muito velhinha tinha conhecido, era ela pequena, senhora muito velhinha que se lembrava de em pequena ter visto entrar em Lisboa soldados da primeira invasão francesa, comandados pelo general Junot, criado Duque de Abrantes por Napoleão («Qui sont vos ancêtres?» perguntara-lhe fidalgo português, antigo e trocista. «Mes ancêtres c"est moi» respondera Junot). Já lá vão mais de dois séculos quando escrevo agora estas linhas. Vai-se tudo enquanto o Diabo esfrega um olho. Cada morto - ou morta - próximo e querido parece às vezes parar o tempo ante um abismo súbito rasgado. Mas é engano - choraremos a hora em que choramos por ela se ter ido embora tão depressa.

E depois há o tempo histórico, as grandes memórias colectivas, macias para quase todos os portugueses do meu tempo salvo para os muitos que nasceram em África. No século XX o maior feito colectivo desta nação a que pertencemos foi o de absorver os retornados em paz, cerzir esse rasgão do tecido nacional tão depressa e tão bem. Nisso a nação seguiu os seus militares que tomaram o poder para se verem livres da ilusão do Império e, uma vez essa liberdade alcançada, devolveram o poder às instituições civis da nação. Tornámos ao espaço que éramos, com Olivença nunca recuperada e, depois de décadas de ensino obrigatório e de televisão castelhana, definitivamente espanhola.

Com isso raramente se apoquenta qualquer português de bom senso (e somos quase todos) mas o que vem de Espanha assusta. Para agradar a elite centralista e anacrónica, chefe de governo visita Barcelona sem se encontrar com os dirigentes políticos locais; para agradar a esquerda revanchista e igualmente anacrónica, manda tirar Franco do Vale dos Caídos. Em vez de apaziguar os povos, anima a maldade que cada um trás consigo, os monstros que se aproveitam do sono da razão e memórias de guerra perto demais de nós. Avó alentejana de outra amiga ouvira muitos tiros do lado de lá da raia; soubera de pais que mataram filhos por ódio ideológico. Em Évora, mulher de general convidado pelos franquistas a assistir ao fuzilamento de rojos na praça de touros de Badajoz, pediu-lhe que lhe trouxesse dedo de um comunista. Tudo isto se passou ontem, poderá passar-se parecido, quase todos nós esperam que não e que chefes políticos espanhóis tenham sabedoria capaz de o evitar.

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