Quem serão os futuros líderes do Brasil?

Quando se endireitam na cadeira para falar sobre as pústulas brasileiras, escorre alguma sobranceria na forma como os portugueses olham para os líderes brasileiros. Um escárnio contido. Um doutismo de aulas à distância. Um orgulho ainda ferido.

Mas aquele Brasil tropical, observado com uniformidade pelas vistas dos europeus, dificilmente representa o atordoamento de diversos brasis espalhados por quase todo o continente sul-americano. Desde os seus primórdios que o Brasil encontra nas suas contradições, nas suas misturas, nas suas diferenças, um elo condutor que lhe garante uma trajetória comum.

O mesmo acontece na política. O Brasil não é apenas o Palácio do Planalto. Olhar para os líderes do Brasil a partir de Lisboa e ver apenas Bolsonaro, é o mesmo que olhar para a Europa a partir de São Paulo e ver apenas a Angela Merkel. A quase unanimidade com que os portugueses reprovam o presidente do Brasil pode ser justificada, mas a altivez com que julgamos os líderes brasileiros, como se estes se restringissem àquelas poucas dezenas que nos chegam pelas televisões, não.

A máquina de fazer e aproveitar talentos está mais avançada no Brasil do que em Portugal. Escrevo este artigo com o prazer interesseiro de querer relê-lo daqui a 10 anos. Quem são os talentos da política brasileira, com menos de 45 anos, que devem exercer funções públicas ainda de maior relevância na próxima década? E o que é que Portugal tem a ver com isso?

Destaco cinco.

Patrícia Ellen da Silva. Nasceu numa família de posses miúdas na periferia de São Paulo e hoje é Secretária de Desenvolvimento Económico do Estado de São Paulo. Em trocados, é a Ministra da Economia do 2º maior PIB da América do Sul, depois do próprio Brasil. Com 41 anos, formou-se com bolsas de mérito em Harvard e no INSEAD antes de se tornar a sócia líder da prática do setor público e social da McKinsey & Company no Brasil. Numa entrevista para a Folha de São Paulo, há alguns meses, eu sugeri que ela seria uma ótima candidata a presidente da câmara de São Paulo (prefeitura). Poderá também ser candidata a vice-governadora do estado nas eleições de 2022. Ou, se o atual governador de São Paulo João Doria vencer Bolsonaro nas eleições de 2022, deverá tornar-se ministra. Não é filiada a nenhum partido político.

Tabata Amaral. Uma história semelhante, da pobreza, por Harvard até à política. Foi eleita deputada em 2018. Tem apenas 26 anos, mas é um exército de ativismo no Congresso a favor da eficiência das políticas públicas. Ganhou destaque nacional ao enfrentar e contribuir para a queda do primeiro-ministro da educação do governo Bolsonaro. Filiou-se ao PDT para poder concorrer ao Congresso, mas está incompatibilizada com o partido. Foi destacada pela revista Time como uma das 100 "estrelas em ascensão" no mundo.

Ilona Szabó de Carvalho. O mês passado, quando Bolsonaro deu uma conferência de imprensa inflamada para se defender dos ataques de Sérgio Moro, destacou publicamente "essa senhora ou senhorita" como um exemplo de um Brasil que não é o dele. Ilona é a fundadora do Instituto Iguarapé, um think tank especializado em segurança pública. Com 42 anos feitos há dias, é uma cientista política que se posiciona a favor da renovação dos quadros públicos. Se o destino deixar, poderia ser ministra da Segurança Pública ou Ministra da Casa Civil (uma espécie de Ministra da Presidência). Também não é filiada em nenhum partido político.

Felipe Salto. Com apenas 33 anos é um dos fiscalistas mais reconhecidos no país, consultado por vários partidos. É o primeiro Diretor-Executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão ligado ao Senado. Nessa qualidade, tem presença ativa na imprensa e nas redes sociais para ajudar a encontrar o caminho de saída do emaranhado das contas públicas brasileiras. Num eventual governo de centro ou de direita, merecerá ser considerado para Ministro das Finanças.

Guilherme Boulos. Foi o candidato presidencial do PSOL (o partido mais à esquerda no menu partidário brasileiro) nas eleições de 2018. Nasceu numa família de classe alta, o que o equipou com uma certa erudição e estudos, mas despiu os privilégios para se dedicar a causas sociais. É o atual Coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e da Frente Povo Sem Medo, uma coligação de combate ao conservadorismo. Tem 38 anos e é um dos possíveis sucessores de Lula.

Não existe consonância ideológica entre estas cinco pessoas. Aliás, alguns são tão contrastantes que nunca participariam no mesmo governo. Também são oriundos de classes sociais e geografias diversas. A única unanimidade é que estes cinco fazem parte de uma aglomeração de outros jovens líderes brasileiros onde cabem 50, 500. Poderia ter mencionado, com o mesmo ênfase, Hussein Kalout, Ronaldo Lemos, Silvio Almeida, Djamila Ribeiro, Priscila Cruz, Beto Vasconcelos, Manuela D"Ávila, Joênia Wapichana, Juliana Cardoso.

Muitas destas pessoas estão associados a movimentos sociais ou de renovação política, como o Agora ou o Acredito, enquanto outros são formados pelo RenovaBR, uma escola de quadros públicos.

A política pode ser, tanto no Brasil quanto em Portugal, uma máquina de trituração de talentos, uma arruaça de interesses partidários, um marketplace de trocas diretas de favores, ou uma acendalha de vaidades. Isso rouba a motivação de muitos. Continua também a haver feudos políticos que se herdam com o sobrenome e se expandem com gentilezas. Ademais, chegar ao cume de uma carreira política tem mais a ver com o acaso do que com o destino. Ou seja, nenhum manual corporativo de RH sobre atração e manutenção de talentos poder-se-á aplicar à política.

Mas a lição para Portugal é que no Brasil, "aquele país sem líderes competentes," emerge uma nova geração política, com extraordinárias capacidades técnicas, espírito público e com uma impressionante liberdade de atuação política fora das áreas de interferência das máquinas partidárias. A imprensa e a sociedade civil são vibrantes e estimulam a mudança. Portugal não se pode orgulhar do mesmo.

* Rodrigo Tavares é fundador e presidente do Granito Group. A sua trajetória académica inclui as universidades de Harvard, Columbia, Gotemburgo e Califórnia-Berkeley. Foi nomeado Young Global Leader pelo Fórum Económico Mundial.

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