Regresso ao Centro

Há um antes e um depois de 2015, quando António Costa pôs um ponto final na tradição, não inscrita na Constituição mas institucionalizada, de ser o vencedor a formar governo.

A lógica do direito a governar passou a assentar na capacidade de se construírem maiorias ideológicas, independentemente do vencedor.

A novidade durou e caiu estrondosamente ao fim de seis anos com o chumbo do Orçamento. E agora que o PSD se definiu, é importante um exercício de memória para perceber o que poderemos ter pela frente a partir de 30 de janeiro.

Com um previsível cenário de profunda bipolarização, como têm apontado todos os estudos de opinião, e tendo o PSD demarcado as linhas vermelhas a uma parte da Direita e o PS sem capacidade de diálogo aparente com Bloco e PCP, Rio e Costa terão uma campanha apostada em secar as suas alas e conquistar o Centro.

A estratégia será semelhante e o sumo das políticas tenderá a não variar muito. António Costa centrará a sua comunicação de campanha numa perceção de prosperidade, baseada no aumento do Salário Mínimo, das pensões, no investimento em serviços públicos como na Educação ou na Saúde, isto é, na resposta à crise com solidariedade e contas certas, em contraponto à austeridade da Direita.

Rui Rio aproveitará os momentos de incerteza que atravessamos, com os previsíveis aumentos das taxas de juro e da inflação, acenando com a redução de impostos para famílias e empresas e um Estado mais magro. Perante o que acredita ser a solução falhada da Esquerda, tentará explorar o seu esgotamento junto do eleitorado moderado.

A questão de fundo não é apenas quem ganha, quando ambos querem evitar os resultados de 35%. É o que farão num cenário pós-eleitoral que os poderá obrigar a estabelecer acordos, tendo na memória o fosso que já cavaram entre si e as últimas palavras de António Costa a marcarem o debate que levou ao chumbo do Orçamento do Estado: nasceu de Esquerda, cresceu de Esquerda e Governou à Esquerda.

Os eleitores é que não perdoariam a nenhum dos dois a incapacidade de viabilizar orçamentos. Porque parece hoje óbvio que a grande maioria está mais preocupada com quem lhes resolva os problemas do que com a formação de blocos ideológicos que tiram o país do centro da política e das respostas.

Um eventual regresso ao Centro não será por prazer, mas por necessidade. A realidade tem destas coisas.

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