Regresso às aulas entre a discriminação e a "euforia social"

Dizem as estatísticas da Direção-Geral da Saúde, tratadas pela TSF, que desde o início do ano letivo o número de casos de covid-19 em crianças com menos de 10 anos aumentou 52,7%. As crianças e os jovens até aos 20 anos são as faixas etárias com as maiores subidas desde 13 de setembro. O aumento de casos é inevitável com a reabertura de escolas e universidades, mas continua a haver uma espécie de esquizofrenia e diversidade de procedimentos. Nalguns casos as restrições e exageros roçam a discriminação, enquanto noutros a falta de precaução tem contribuído para acelerar a propagação da doença.

Em Lisboa, na Escola EB2/3 Luís de Camões, um aluno que esteve infetado foi impedido de entrar na escola já depois de apresentar o teste negativo, com a Direção a alegar que era necessário um "atestado de cura passado pelo médico". A diretora-geral da Saúde esclareceu que o teste negativo é quanto basta para o regresso dos alunos e o esclarecimento das normas a seguir é essencial para que nenhuma criança ou jovem seja prejudicado no acesso às aulas presenciais.

A Fenprof tem mantido uma lista de escolas, atualizada regularmente - a última vez ontem à tarde -, em que aponta as que têm casos de covid. É uma mera lista nominal a que falta contexto, nomeadamente porque mistura casos ativos e não ativos, tal como não distingue entre a existência de surtos ou a deteção de um caso isolado. Os casos devem ser do conhecimento das famílias, professores e outros profissionais que possam ter de alguma forma contacto ou risco de contágio, mas de nada serve, a não ser para criar alarmismo e a tentação de apontar o dedo, a divulgação pública e descontextualizada de nomes de escolas.

Em sentido inverso, há situações de desleixo com as normas de prevenção, particularmente em contexto académico. Já é uma aberração que se mantenham praxes (rituais de humilhação, mais do que de integração) em tempo de pandemia, mas o Conselho de Veteranos acabou de suspender esta prática por cinco dias na Universidade de Coimbra, admitindo ser necessário sossegar a "euforia social" criada pelo regresso da vida académica. Nas universidades do Porto e de Aveiro, festas de alunos do programa Erasmus já causaram mais de uma centena de infetados.

Do poder político, chega-nos a mesma oscilação de mensagens. Ao contrário do que tinha vindo a acontecer nas últimas semanas, o Governo esperou pelo último dia da situação de contingência (que termina hoje) para anunciar o que vai fazer. E vai dando sinais de que não tenciona seguir um caminho demasiado restritivo, apesar de na semana passada, numa mensagem incisiva, o presidente da República ter posto nos ouvidos do país a ideia de que pode ser necessário repensar o Natal.

A Organização Mundial de Saúde pede aos estados que não optem por confinamento, dado que este agrava as desigualdades sociais. Mas também não pode deixar-se o vírus circular livremente, o que obriga a encontrar um difícil ponto de equilíbrio. Alguma normalidade, sim, mas sem excessos. Conseguirmos ter Natal depende desse equilíbrio, numa altura em que o cansaço com a pandemia e todos os seus efeitos sociais e económicos acentua o risco de nos

dividirmos quanto ao caminho a seguir. Essa escolha só será eficaz se tivermos, da parte do Governo e autoridades de Saúde, mais clareza nas orientações e ações dirigidas a públicos-alvo específicos, sejam elas de sensibilização ou punitivas. Não é pelo medo, nem com ameaças atiradas de forma generalizada para a praça pública, que conseguimos algum resultado nessa tarefa tão difícil de encontrar o caminho do meio.

Ouça "A Opinião", de Inês Cardoso, na íntegra

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