Rex/Pontifex

A admiração por Akhenaton mantém-se mas com grande beliscadura: estou há décadas convencido de que o monoteísmo é um dos maiores flagelos do mundo; que os males sancionados pelo Deus de Abraão, Isaac e Jacob excedem de longe os bens que se lhe possam atribuir.

As palavras são latinas mas os conceitos vêm dos egípcios que inventaram as traves mestras do poder neste mundo e no outro. Tudo o que veio depois deles - de gregos, romanos, cristãos, muçulmanos - foi construído sobre esses alicerces, expressos inter alia nas maravilhas mais antigas ao Sul do país e nas pirâmides de Gizé a Norte, dizia-me amigo que há dias subiu o Nilo, parando nos dois hotéis preferidos de Agatha Christie, um tipicamente inglês colonial, o outro já afrancesado e ambos excelentes para alguém se desalterar e meditar nos intervalos de tal regresso às origens, bafejados há cem anos por ventoinhas e agora por ar condicionado. O meu amigo só lamentava que, perante tanta sabedoria ancestral, não se pudesse pedir agora ao General Abdel Fathah el-Sisi que se fosse instalar em Londres para meter na ordem o bando de descerebrados, eleitos e eleitores, que numa mistura surpreendente de incompetência, ignorância e engano, meteu o Reino Unido na camisa-de-onze-varas do Brexit.

Respondi-lhe que inventar tudo, tudo, não tinham. Escapara-lhes o monoteísmo, embora o faraó Amenofis IV - ou, como ele preferia ser denominado, Akhenaton - durante o seu reinado tentasse promovê-lo. Foi, para os artistas (sempre solícitas ao gosto dos seus patronos), tempo diferente dos outros: o que chegou até nós dos seus ateliers e oficinas está cheio de esculturas e de restos de pinturas murais naturalistas, como não se encontram em nenhum outro momento da história egípcia, desde dos primórdios desta até à invasão romana, nem em qualquer outro lugar antes do Renascimento. Quando, aos doze anos, eu soube destes sucessos, Akhenaton passou a ser um dos meus heróis, juntamente com Fernão de Magalhães e o capitão Scott que com a sua expedição atingira o Polo Sul para encontrar a bandeira da Noruega, hasteada por Amundsen que lá chegara antes e, no regresso, morrer de frio com os seus companheiros na neve da Antártida.

Entretanto, mudei muito. A admiração por Akhenaton mantém-se mas com grande beliscadura: estou há décadas convencido de que o monoteísmo é um dos maiores flagelos do mundo; que os males sancionados pelo Deus de Abraão, Isaac e Jacob excedem de longe os bens que se lhe possam atribuir . Na tradição cristã seguem-se ao monoteismo, o cristianismo primitivo e a Reforma - fora das igrejas mas em veias semelhantes eu acrescentaria Marx e Freud). E para tudo isto, lembrando-me da sugestão do meu amigo, nem o General el-Sisi chegaria.

Ia continuar sobre monoteísmo e lei e ordem à l"égyptienne mas, escrevo terça-feira, acabo de saber que o ex-presidente da Costa do Marfim, Laurent Gbagbo, preso há 7 anos, acusado de crimes contra a humanidade, foi absolvido e mandado libertar pelo Tribunal Penal Internacional. Gostei que o Tribunal começasse a ganhar juízo - e lembrei-me de Gbagbo, ainda presidente a dizer a jornalista francês: «Pois é, vocês querem que a gente faça a Revolução de 1789 sem ofender a Amnistia Internacional».

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