Rosa Mota é importante para quê?

Começo por citar uma frase proferida há apenas 20 dias atrás: "Podem ter uma certeza - é que a Rosa Mota é mais importante do que todos os governos de Portugal (os que foram, os que são, e os que hão-de ser) e de todos os Presidentes de Portugal."

Grande parte dos ouvintes deve reconhecer esta frase como tendo sido dita por Marcelo Rebelo de Sousa.

O Presidente da República Portuguesa interrompeu nesse dia 8 de outubro as audiências formais aos partidos com representação parlamentar para ir ao Museu dos Coches ver a atleta e para inaugurar uma iniciativa chamada "Desportistas no Palácio de Belém".

A atleta portuguesa, que venceu a maratona dos Jogos Olímpicos de 1988 tem, portanto, importância objetiva suficiente para interromper o processo formal de constituição de um novo Governo para o país.

Para o Presidente da República e para todos os partidos envolvidos, uma vez que ninguém criticou o facto, essa importância de Rosa Mota é real, não se discute, é tacitamente aceite.

A atleta tem ainda importância subjetiva suficiente para ouvir a frase elogiosa de Marcelo Rebelo de Sousa que, sendo um exagero afetivo (ao estilo das coisas que o Presidente da República gosta muitas vezes de dizer) pode, na verdade, corresponder ao sentimento emocional de muitas pessoas que admiram a medalha de ouro de Seul.

Rosa Mota não é só importante pelos feitos desportivos: ela é também significativa por ter valorizado o desporto feminino que, depois dela, passou a ser visto com outra relevância e isso, por contágio social, contribuiu igualmente para o reforço do papel das mulheres da vida pública e cívica do país - até porque ela nunca fugiu da sua própria intervenção na vida política, apoiando as causas e os projetos que achou serem mais adequados para o seu envolvimento.

Rosa Mota tem, portanto, importância e tem, pelos vistos, algum poder pois consegue que o Presidente da República desvie a atenção da formação do Governo para estar com ela.

Mas Rosa Mota, que o Estado português venera, nada pode contra a iniciativa privada.

A notícia da TSF desta manhã explica a polémica sobre a mudança de nome do Pavilhão dos Desportos nos Jardins do Palácio de Cristal no Porto que, em homenagem à atleta, passou a chamar-se, em 1991, Pavilhão Rosa Mota.

Depois de umas obras de recuperação e de uma concessão a privados, o Pavilhão Rosa Mota passa a chamar-se Super Bock Arena - Pavilhão Rosa Mota e, ao que parece, ainda foi preciso refilar um bocadinho para o nome da atleta não desaparecer de vez.

E contra a vontade da Super Bock, nada pode o poder da Rosa Mota, supostamente mais importante que o de qualquer Presidente da República ou o de que qualquer Governo.

E contra a vontade da Super Bock, ao que parece, nada pode o poder do Presidente da República.

E contra a vontade da Super Bock, pelo relato da carta enviada por Rosa Mota à Câmara Municipal do Porto, nada pode o poder do presidente da Câmara, doutor Rui Moreira.

A conclusão é simples: neste país, se Rosa Mota vale mais do que um governo ou do que um Presidente da República e a Super Bock vale mais do que Rosa Mota, então a Super Bock vale mais do que qualquer governo e do que qualquer Presidente da República.

Nesta soma básica do "dois mais dois igual a quatro" da análise política, teria de ser forçado a concluir que a Super Bock é quem manda no país...

Há aqui qualquer coisa errada, que as contrapartidas dadas ao financiamento das obras de renovação do Pavilhão não explicam inteiramente.

Tal como na outra notícia desta manhã sobre a inviabilização do museu do liberalismo na casa do Porto onde nasceu Almeida Garrett , o que há, sobretudo, é um cada vez maior desprezo do papel do Estado e dos símbolos que identificam e tornam Portugal uma personalidade colectiva com características únicas, que se vergam, fraca e placidamente, ao que hoje em dia realmente tem importância e poder - o senhor dinheiro.

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