Rui Rio. Olha para o que digo e não para o que faço

Numa tentativa de jogar por antecipação, Rui Rio tem marcado terreno na escolha dos candidatos para as eleições autárquicas, com apostas fortes nalguns concelhos, com Lisboa à cabeça. A tática, contudo, vai saindo manchada por vários erros estratégicos. Depois de desacertos na indicação de candidatos antes mesmo de os próprios serem contactados, Amadora e Oeiras são os mais recentes exemplos de como o presidente do PSD vai perdendo coerência entre discurso e prática. No primeiro caso, por razões ideológicas. No segundo, por mais uma vez sair completamente beliscado o discurso de rigor e grande exigência que tenta manter em torno da sua imagem.

Reunida na última noite, a Comissão Política Nacional do PSD confirmou a escolha de Suzana Garcia para liderar a corrida à Câmara da Amadora. A escolha foi das estruturas concelhia e distrital e causou polémica nos últimos dias, mas a direção não viu razões para travar a advogada e ex-comentadora de casos de polícia. Para quem afirmou querer puxar o partido ao centro, não deixa de ser curioso que Rui Rio vá cedendo a discursos colados à extrema-direita, mais ainda depois de ter experimentado, nos Açores, os riscos políticos de mostrar disponibilidade para alianças com forças como o Chega.

Suzana Garcia já veio a público defender-se dos ataques e negar ligações extremistas, mas as evidências estão nas suas próprias posições. É defensora de propostas como a castração química para crimes de natureza sexual contra menores, tema caro ao líder do Chega (aliás, basta ver o elogio público que André Ventura fez da escolha, lendo nela uma mudança e reconfiguração da direita portuguesa). Nos seus comentários, Suzana Garcia soma também declarações polémicas sobre racismo, xenofobia e criminalidade, tendo-se referido a Mamadou Ba, dirigente da SOS Racismo, como "parasita da sociedade".

Se no caso da Amadora são questões ideológicas que entram em contradição com os princípios de Rui Rio, já em Oeiras estão em causa questões éticas. E se lhe têm faltado argumentos políticos para se afirmar como líder da Oposição, o presidente do PSD acaba por ver desgastado também o capital em que sempre fez assentar a sua imagem: temas como o rigor e a transparência na vida pública caem por terra com o apoio a um candidato que foi condenado e esteve 437 dias na prisão por fraude fiscal e branqueamento de capitais.

É certo que, neste caso, a decisão ainda não está tomada. Mas já foi sinalizada pelas estruturas concelhias e têm sido divulgadas negociações dos nomes social-democratas a incluir na eventual lista encabeçada pelo independente. A seu tempo se confirmará se também aqui a popularidade de Isaltino Morais e o posicionamento para reconquistar terreno em Oeiras se sobrepõem a outros objetivos políticos de Rio.

Nas escolhas para o poder local vê-se, na generalidade dos partidos com grande influência territorial, muito do que o país tem de pior. Nos vícios de autarcas que se eternizam nos cargos e, quando já não podem concorrer num concelho por atingirem o limite de mandatos, se transferem para concelhos vizinhos. E nas dificuldades em encontrar perfis alternativos, mesmo perante candidatos com investigações ou condenações no currículo, baixando a fasquia em relação à exigência que todos devíamos ter com quem ocupa cargos públicos.

Uma reflexão particularmente oportuna na semana em que se aguarda a decisão mais importante da justiça portuguesa nas últimas décadas. Na Operação Marquês está em causa não apenas um antigo primeiro-ministro, mas todo um regime político e as ligações entre a vida pública e os vícios privados de alguns dos seus titulares, nas ligações tentaculares à banca e a empresas-chave da economia. Seja qual for a decisão da Justiça na próxima sexta-feira, a Operação Marquês marcará definitivamente o país, e sobretudo a imagem que temos (e queremos) de quem o dirige.

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