Samba de um Jesus só

Que havia um "Samba de uma nota só" já sabíamos, mas agora ficámos a saber que também há um "Samba de um Jesus só". A Libertadores, que o Flamengo recuperou quase 40 anos depois, ficará para sempre ligada a Jorge, o português. Tal como o Brasileirão, um dois-em-um que a História jamais irá esquecer.

Porque não há como contornar o óbvio : em menos de meia dúzia de meses, o técnico operou uma revolução impensável no colosso do Rio de Janeiro, provocando um violento abanão numa série de conceitos (ou dogmas?) que pareciam inamovíveis no futebol brasileiro.

Não sei se ele conhecia as palavras de Tom Jobim ("Eis aqui este sambinha feito numa nota só / Outras notas vão entrar, mas a base é uma só"), o facto é que foi justamente aquele processo de agregação promovido por Jesus que levou a um tsunami com que poucos contavam.

Mas a coisa não foi fácil. Jesus enfrentou a desconfiança - e alguma ignorância, acrescente-se - de vários setores que não viam nele ponta de interesse ou relevância, de tão convencidos que estavam de que um português jamais teria capacidade de trazer algo de novo à terra onde o futebol "é maior".

A petulância levou-os ao tapete. Para lá de terem alguma dificuldade em admitir que o primeiro mundo do futebol é na Europa, não sabiam que, durante anos, Jesus passara madrugadas a fio a seguir o Brasileirão (pelos vistos, conhecia-o melhor do que os seus detratores), nem sonhavam o que ele costuma fazer nas primeiras épocas nos clubes onde entra.

Embora ame o futebol e nem sequer consiga conceber a vida sem ele, é claro que o Jesus do Rio não é um deus. Mesmo que muitos dos torcedores, agora, até olhem para ele como alguém com toque divino. O único toque que ele tem é o de Jorge, tão humano quanto nós, o que torna tudo isto ainda mais extraordinário. Nota-se que aprendeu com os seus equívocos anteriores e que já deve ter pensado nisso dúzias de vezes, percebendo que, se tal não tivesse sucedido, teria chegado ao Olimpo muito mais cedo.

De resto, a partir de dada altura, tornou-se evidente que Jesus precisava de sair do "casulo" do campeonato português (e não falo de um simples ponto de passagem como a Arábia Saudita) para crescer em múltiplos aspetos que ainda não estavam no mesmo patamar da sua incomum dimensão técnica. Livrou-se dos seus fantasmas e o resultado está à vista.

Reparem, por exemplo, na mudança do registo na comunicação, travando naqueles momentos em que, ao contrário de outros tempos, derrapava para o auto elogio quando nem tinha necessidade. Jesus tem o Brasil a seus pés, porque se limitou a mostrar do que é capaz com uma invulgar capacidade de trabalho.

Depois de campeões continentais de clubes (José Mourinho e Artur Jorge, na Europa; Manuel José, em África) e de seleções (Fernando Santos), faltava mesmo deixar a nossa marca na América do Sul. Jesus tratou disso no dia em que acreditou que podia relançar o Flamengo para a ribalta internacional.

E, ao projetar o clube, afirmou a sua imagem. Houve um enorme investimento do Flamengo em jogadores? Houve. Mas quantos treinadores, por todo o lado, não fracassaram apesar de terem plantéis de luxo? A solução não reside estritamente na matéria humana, mas sim no que fazer com ela. Jesus deu a resposta com um bis categórico. Em rigor, estes triunfos são dele.

Sendo que agora o objetivo é tentar vencer o Mundial de clubes (como Jesus adoraria um frente a frente com Klopp...), falta perceber o que se segue quando o ano fechar. O Flamengo quer o português, mas não é certo que o treinador queira o Flamengo depois desta época perfeita. Se há coisa que JJ já aprendeu há muito tempo é que, no futebol, isso de casamentos para a vida é algo que não existe. Além de que um campeão sul-americano tem legitimidade para reclamar um espaço entre a elite da elite. E esta está deste lado do Atlântico.

Em resumo, o futuro a Jesus pertence.

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