Sem dívidas e sem Misericórdia a pagar a conta

"Não tem dívidas", afiança, e tem uma pensão de pouco mais de dois mil euros. Pergunta que se impõe: quem vai pagar a caução de Joe Berardo? O arguido saiu em liberdade ontem depois de passar três noites detido no estabelecimento prisional anexo à sede da PJ, em Lisboa. Foi inquirido e o juiz Carlos Alexandre colocou como condição, ou seja como medida de coação, o pagamento de cinco milhões de euros para poder sair à rua. O pagamento dos 5 milhões de euros terá de ser feito dentro de 20 dias e não será certamente a Santa Casa da Misericórdia a pagar, muitos menos os jornalistas, como ironizou o advogado do arguido, Paulo Saragoça da Matta.

Uma coisa é certa, e sem ironias, não há intocáveis e é saudável que assim seja num Estado de Direito. O empresário Joe Berardo e o advogado André Luiz Gomes - que também saiu ontem em liberdade com uma medida de coação de 1 milhão de euros - foram indiciados por burla qualificada, fraude fiscal qualificada, branqueamento de capitais, falsidade informática, falsificação, abuso de confiança e descaminho ou destruição de objetos colocados sob o poder público.

O caso Berardo, que conta com 11 arguidos (cinco pessoas individuais e seis pessoas coletivas), foi tornado público depois de uma operação policial em que foram feitas perto de meia centena de buscas, três das quais a estabelecimentos bancários, e que levou à detenção do empresário e colecionador de arte e do seu advogado de negócios André Luiz Gomes, suspeito pelos mesmos crimes.

Para o cidadão comum a gota de água já há muito tinha caído no copo, no momento em que Joe Berardo fez declarações no parlamento dizendo não ter quaisquer dívidas. A gota de água não caiu apenas por essa declaração, mas pela forma irónica como se dirigiu aos deputados, em plena casa da democracia, levando a deputada Mariana Mortágua, e não só, a ficar à beira de um ataque de nervos.

Berardo não agiu sozinho. As portas giratórias entre política e economia estão espelhadas em mais este caso de justiça. A banca também não sai ilesa disto tudo: a Caixa Geral de Depósitos, alegadamente, terá dado crédito a Berardo até às vésperas da investigação. Só nesse banco terá obtido cinco financiamentos.

Branqueamento de capitais, falta de transparência, burla, corrupção e lentidão da justiça que continuam a causar danos reputacionais graves ao país. E mais uma vez vale a pena perguntar: sem o escrutínio dos media, sem a investigação jornalística ao longo de tantos anos sobre casos como os de Berardo algo teria acontecido? Olhando o passado recente, também a morte de Ihor às mãos do SEF não veria feita justiça se os media tivessem ficado calados.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de