«Senhor Rei D. Carlos: Quiqueriqui !»

«Cantaste a tempo» respondeu o Rei do fundo da escada, à saída do manicómio, a maluco que gritava lá de cima, depois de o ter convencido durante a visita de estar ali fechado por conspiração de família e médicos que lhe queriam apanhar a fortuna. Um paranoico inteligente pode ser muito persuasivo.

Lembrei-me desta vinheta monárquica em mês de comemoração da República a propósito de Donald Trump que, desde o começo do seu mandato, não para de mandar quiqueriquis sem que o Senado, dominado pelo partido republicano, haja por bem cortar-lhe o pio. Longe disso e muito pelo contrário, é Trump quem domina o Senado: os seus apoiantes incondicionais - cujo núcleo são homens brancos, pobres e pouco instruídos - não darão voto a senador ou candidato a senador que se oponha a ele. De dois em dois anos, parte do Senado é submetida ao arbítrio dos eleitores e como cada eleição pode ser precedida de primária partidária, nem senadores eleitos com grandes maiorias se sentem seguros, pois trumpistas fanáticos podem apresentar-se e derrubá-los logo aí. Assim, o medo, muito mais do que convicções, foi ditando cada vez mais a atitude de muitos senadores para com Trump que, como outros populistas carismáticos, tem o dom de alinhar tudo por baixo.

Isto é muito desagradável porque Trump precisaria de vigilância: já disse mais de seis mil mentiras desde que chegou à Casa Branca e a sua ignorância (bem como a recusa de a reconhecer e tentar corrigir-se) perturba grandemente a governação do país. Os democratas iniciaram movimento para o destituir na Câmara dos Representantes mas tal levará tempo, sofrerá golpadas de Trump e a decisão final caberá ao Senado. A única esperança de mudança está na possibildade de número suficiente de senadores republicanos virem a abandonar Trump.

Tudo se tornou mais desagradável ainda para nós, europeus, e para o mundo em geral desde que Trump passou também a meter-se em política externa. Aí - além das guerras e ameaças de guerra comerciais - conseguiu, num par de meses, pôr cereja no cimo do bolo do fim da autoridade norte-americana no mundo. Primeiro com a desgraçada tentativa de fazer a Ucrânia interferir nas próximas eleições presidenciais americanas e, a seguir, ao retirar as forças americanas da

Síria, dando novo, inesperado e perigosíssimo fôlego ao ISIS que irá seguramente aumentar muito as suas actividades na Europa, e ajudando a confirmar o poder de Putin no Médio Oriente.

Se, em Washington, senadores republicanos suficientes tiverem aquilo a que os espanhois chamam cojones e, entretanto, o partido democrata conseguir também ganhar juízo, talvez não esteja tudo perdido. Se não, desequilibrado sem baias e possivelmente criminoso - o que é que o Kremlin sabe sobre ele? Porque não deixa ver suas declarações de impostos ? - em menos de quatro anos terá feito do mundo lugar muito mais perigoso ainda do que já era antes de, mariola eleito, se ter instalado na Casa Branca.

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