Sentido de voto

Não restam dúvidas que, independentemente da solução governativa encontrada, a abstenção deveria ser objecto de estudo por parte da classe parlamentar na próxima legislatura. Ler a abstenção é tudo menos fácil. É um livro em branco perante o qual apenas nos podemos atrever a especular.

A primeira razão apontada à falta de comparência dos eleitores é a desconfiança profunda perante as reais intenções dos deputados que elegem. Este factor causa ainda a pulverização dos votos, beneficiando partidos mais pequenos. A eleição do CHEGA e da IL, por exemplo, não trará nada de substancial ao hemiciclo, porque estes são partidos sem programa, ou ideologia, foram um voto de protesto, o mais perigoso dos votos.

Se se tem de facto de considerar a abstenção como o verdadeiro inimigo a abater, ponto de honra e de concórdia entre todos os partidos, não se percebe como não houve quase ninguém a torná-la, não num tema de puro debate, mas numa medida política a consagrar na legislatura. Se muita gente insiste em que existe mesmo uma leitura a fazer da abstenção (o protesto, a insatisfação) há que sistematizar essa leitura o melhor possível, incluindo fatores mais "leves" mas porventura tão ou mais decisivos na ideia de não ir votar: a preguiça, a indiferença.

Nem toda a abstenção é uma mensagem política mas será sempre um aviso de que metade dos nossos eleitores não se dá ao trabalho de se deslocarem a uma mesa de voto. E esta sociedade decide muito por razões menos profundas, mais prosaicas. Para cada um que sente o aperto na garganta, incerto do futuro do seu país, e vai votar, existem dezenas de outros a sentir a brisa na cara na praia que o tempo estava bom, ou em casa, entre gatos e Netflix. Muitos deles são jovens.

A educação democrática devia ser a primeira coisa na qual apostar, tanto que muitos destes jovens estão confusos demais para votar. Não é com os moralismos de Rio, a retórica de Ventura ou o Costa marialva do Terreiro do Paço que se desfaz o nó cego. De resto, se num universo de 9.600.000 eleitores votaram cerca de 5.400.000 (dados PRODATA), o interesse em ler jornais ou ter cultura política não chegará sequer a um milhão, julgando pelas vendas de jornais e números da Imprensa online. Ou seja nem todo o voto é informado. Os eleitores votam ou por tradição ou por ruptura e a sua grande maioria não acede ao programa político do partido que vota. Decerto que existe também um processo de carácter urgente para actualizar as cadernetas de voto, que deveria ser concluído nos próximos 4 anos, num pacto de regime, sem confusões, a bem de todos.

Esse novo documento permitiria encaixar propostas como voto compulsório, ou multa nos impostos por não ir votar, caso se esgotassem ou falhassem as tentativas através da sensibilização. Na Escola quase nunca se fala de democracia e do período pós-revolucionário, aliás nem se aborda quase nada no Estado Novo, prevalecendo ainda o Portugal Histórico da Idade Média e dos Descobrimentos na gestão do tempo lectivo dedicado à disciplina. Assim torna-se impossível ao estudante encaixar historicamente o sufrágio livre e reconhecer-lhe a justa importância. Normalmente, o jovem politiza-se ao mesmo tempo que se junta a uma juventude partidária que não lhe dá período de reflexão algum, apenas tarefas simbólicas e a cartilha partidária para ler.

Enfim para a democracia funcionar em pleno carece de mais participação. Como eleitor exijo que o Parlamento se dedique a sério a este problema e que encontre uma solução intrapartidária, fazendo sociedade em vez de política. O sistema "melhor que todos os outros" não pode subsistir tão afastado das pessoas que lhe dão significado.

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