Ser visto (a todo momento)

Nas últimas semanas assistimos ao crescimento dos pedidos e autorizações concedidas para instalação de câmaras nas ruas mais movimentadas das principais cidades do país. As contas estão no "Jornal de Notícias", que hoje faz manchete com o tema: estão autorizadas 794 câmaras distribuídas por 14 concelhos, mas perspetiva-se já um aumento para um total de 1076.

Na origem deste reforço da videovigilância estão motivos de segurança. As câmaras têm sobretudo um efeito dissuasor e preventivo, não substituindo o policiamento de proximidade mas ajudando, por exemplo, a identificar eventuais suspeitos de crimes na via pública. A autorização é competência do Ministério da Administração Interna, mediante parecer da Comissão Nacional de Proteção de Dados. Embora o parecer não seja vinculativo, o Governo assegura que tem seguido as orientações daquele organismo, tendo como prioridade a proteção dos direitos dos cidadãos.

Tendemos a ceder espaço a mais vigilância em nome da segurança e do conforto. É assim com câmaras no espaço público, tal como é assim em relação a tecnologia invasiva que nos oferece comodidade nos nossos hábitos diários. Se pensarmos em gestos simples como os pagamentos ou a navegação assistida, não faltam exemplos de rotinas que permitem reconstituir cada passo que damos.

Com o tempo, vamos desvalorizando o peso dessas invasões e o valor da privacidade. Até porque abdicamos dela voluntariamente. Na era das redes sociais, mostrar passou a ser a prática, com fronteiras cada vez mais diluídas entre o que é público e o que é privado. Consciente ou inconscientemente, acreditamos na bondade da tecnologia e só nos apercebemos dos riscos quando somos confrontados com consequências perversas de usos que entendíamos trazer-nos vantagens.

No fundo, não avaliamos o reverso da medalha e o peso da vigilância que recai sobre nós. A omnipresença da imagem significa que a todo o momento podemos ser vistos, filmados e, no limite, colocados num feed de Facebook ou Instagram. Com tudo o que isso implica em relação à perenidade das imagens partilhadas. Cada gesto pode ser registado "para sempre". Qualquer palavra dita tem uma repercussão potencial nem sempre percebida à partida.

Estando a imagem tão ligada à aceitação, nas gerações mais jovens que crescem numa relação natural com as redes há o risco de se recear excessivamente a falha, a palavra ou momento mal conseguido que acaba exposto. No limite, o excesso de imagem pode implicar uma perda de liberdade não apenas porque permitimos que nos vigiem. Mas porque eventualmente acabamos por nos autocensurar, conscientes de que a todo o momento podemos estar a ser vistos. E esse é um risco sobre o qual vale a pena refletir.

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