Será que António Costa quer mesmo casar?

Nas declarações sobre as opções possíveis para o modelo de governação na legislatura que se segue, António Costa faz lembrar aqueles jovens que dizem que querem casar e que a família até valoriza muito o casamento, mas, ao mesmo tempo, vão acrescentando que o casamento não passa de um papel que não muda nada na relação. É assim que o vamos ouvindo afirmar que os portugueses demonstraram gostar da "geringonça" e querer vê-la reeditada, para, logo de seguida, acrescentar que a forma dos acordos não é importante e que se for preciso governar sem maioria, assim seja.

Com as reuniões desta quarta-feira, o tempo é de clarificação sobre o que pretende, afinal, o primeiro-ministro indigitado. É possível que o discurso pouco assertivo seja uma mera hesitação tática, para tentar conter as exigências do Bloco de Esquerda, o único partido capaz de lhe dar maioria que afirmou inequivocamente estar disponível para reeditar o acordo de 2015. O PS ganhou força, tem várias opções de aliança no Parlamento e não quererá facilitar as negociações com Catarina Martins. Sinal disso mesmo será a presença, na equipa negocial, do presidente do partido. Carlos César, recorde-se, proferiu as mais duras farpas contra o Bloco de Esquerda durante a campanha eleitoral.

Pode acontecer, contudo, que as declarações de Costa apontando para acordos não escritos não sejam um acaso. Poderá estar disposto a governar sem compromissos de partida, negociando caso a caso com quem for mais conveniente a cada momento. Tem à sua frente várias opções matemática e politicamente viáveis, incluindo virar-se para o PSD em matérias de interesse do bloco central.

Este cenário poderá, contudo, vir a revelar-se mais difícil do que parece. Desde logo porque é um caminho sem garantias, em que qualquer contratempo pode transformar-se em tempestade. Sem estarem amarrados ao Governo, PCP e Bloco de Esquerda retomarão o estilo de Oposição descomprometida, com os riscos que daí advêm. Acresce que o cenário económico está em mudança, sendo mais difícil governar sem o ritmo de crescimento que permitiu alguma recuperação salarial.

Ao final do dia será mais fácil perceber o que esperar para os próximos anos: se António Costa quer mesmo casar ou seguir sem papel assinado, fazendo uso do fortalecimento político com que saiu das eleições.

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