Sim, senhor primeiro-ministro

A guerra mantém-se na praça pública há uma semana e meia. Desde que o ministro da Economia se pronunciou a favor de uma redução generalizada do IRC no Orçamento do Estado para 2023, numa entrevista à TSF e Jornal de Notícias, assistimos a consecutivos e imparáveis movimentos de desautorização pública de António Costa Silva. Num momento inicial o aviso mais contundente, mandando calar o seu colega de Governo, partiu do titular das Finanças, Fernando Medina. É uma reação que se entende, dada a divergência de interesses e o papel de guardião do cofre de quem tem esta pasta. Muito mais grave é que tenham sido entretanto vários os secretários de Estado a pronunciar-se, incluindo os tutelados pelo próprio ministro da Economia. Não é normal vermos governantes desautorizados na praça pública pela sua equipa direta.

O que nos revela este insistente tiro ao alvo na questão do IRC? Dois tipos de dissonância, ambos com alcance político mas de natureza muito diversa, sobre os quais importa refletir. O primeiro é a divergência dentro do Governo e as dificuldades que este evidencia em arrumar a casa e dialogar dentro de portas. Têm sido frequentes os episódios que mostram um Executivo desarticulado e aparentemente cansado, apesar dos poucos meses da legislatura. Esta é uma dificuldade que cabe a António Costa gerir e sabemos que o primeiro-ministro tem sido imune a pressões e polémicas, levando ao limite as decisões sobre alterações ou remodelações na sua equipa.

Mais séria para o país será outra dissonância, a que opõe membros do Governo filiados no PS e de grande força política a vozes independentes. É inegável que António Costa Silva foi incauto na assertividade com que se referiu a uma descida generalizada do IRC, numa altura em que o trabalho preparatório do Orçamento está guardado a sete chaves e a discussão deve ser feita internamente. Mas é igualmente verdade que cabe a cada ministro defender a sua pasta, sendo natural que o responsável pela Economia aponte um caminho com virtualidades para as empresas. As reações insistentes a que assistimos não teriam a violência e a anormal inversão de hierarquias de governação se Costa Silva tivesse força política.

O que nos conduz a uma reflexão imprescindível em qualquer democracia, mas ainda mais relevante num tempo de incerteza como o que vivemos. Apesar da maioria absoluta, António Costa teve muita dificuldade em chamar à sua equipa nomes fortes da sociedade civil. E estes puxões de orelhas a um "corpo estranho" parecem indiciar que a maior preocupação dos socialistas é limitar o debate sobre os temas, mesmo quando isso implica expor fraturas do Executivo e atirar um dos seus elementos para a fogueira.

Numa altura em que se anunciam excedentes orçamentais e é preciso decidir o que fazer com eles, seria essencial que o país debatesse com profundidade e sem amarras partidárias o caminho a traçar. Essas escolhas, nomeadamente na oposição entre abater à dívida pública ou redistribuir mais, serão essenciais para o nosso futuro. E importa que, mesmo com maioria, o Governo esteja aberto à discussão e comece por praticá-la dentro de casa. O incidente Costa Silva poderá parecer menor ou um simples caso de descoordenação política. Mas, abrindo o olhar sobre o que tem sido a prática governativa, ou sobre a dificuldade crescente em termos mais sociedade civil na política e em acreditarmos numa dialética construtiva que se sobreponha ao mero acenar de cabeça perante as orientações de quem manda, o que está em causa é, afinal, muito mais fundo. E acaba por definir-nos enquanto país capaz (ou não) de tomar nas mãos o desenho do seu futuro, numa construção aberta a todos os que nela queiram participar.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de