Teríamos passado pela troika se o PS acreditasse mesmo nas contas certas?

Se há coisa que os últimos anos mostraram é que os Orçamentos de Estado apresentados por Mário Centeno nunca são iguais aos Orçamentos que efetivamente são executados, aqueles que contam, aqueles que espelham as reais opções orçamentais.

Os Orçamentos apresentados têm, por isso, pouco valor facial, destinados que são a iludir, deixando-nos a discutir lateralidades. Não me parece muito útil passar tempo a discutir este ou aquele número, esta ou aquela medida, quando o mais certo é que nada disso seja para levar a sério.

Os partidos à esquerda do PS costumavam participar nesta encenação, fingindo acreditar no que lá estava, fazendo por esquecer cativações. Esse acordo informal acabou, e é ver esses partidos, que se importavam com pouco, a importar-se agora com tudo. E o primeiro-ministro teve de arranjar forma de comunicar ao país que o poder de Centeno é relativo, que há um polícia bom no Governo. Aquela encenada discussão não teve outro propósito que não fazer de Costa o provedor dos portugueses face à máquina de calcular de Centeno. Só cai quem quer.

Mas não é possível ignorar a previsão de um excedente orçamental, o primeiro da nossa História democrática. A concretizar-se, é uma boa notícia para Portugal, que não pode continuar a viver em permanente défice, em permanente endividamento. A forma como lá se chega não é a melhor, mas o princípio está correto: sem contas públicas saudáveis, as hipóteses de crescimento sustentado são muito menores.

É a primeira vez que os socialistas se afirmam entusiastas do princípio, porque foram sempre dos primeiros a falar da vida além do défice, dizendo que as pessoas não eram números, como se os défices fossem pormenores, por vezes até sinal de empenho social.

Mais vale tarde do que nunca, mas justifica-se perguntar: o que teria sido Portugal se os socialistas se tivessem empenhado nesse princípio, o que teria sido a economia portuguesa, o que teria sido a mobilidade social, o que teriam sido as oportunidades dos portugueses, se os socialistas, que nos governaram na maioria dos anos das últimas duas décadas, tivessem adotado esse princípio?

Não basta vir fazer de responsável, dizendo com candura e lógica aquilo que, durante anos, o PS abjurou. É preciso não esquecer que o país se viu resgatado depois de um défice superior a 10%, sem dinheiro para pagar salários nem pensões, condenando o país a um duríssimo ajustamento.

O que o país sofreu durante o período de ajustamento teria sido muito diferente, ou nem sequer teria existido, se o PS levasse a sério o que agora quer tornar seu património: as contas saudáveis. Estaríamos hoje muito melhor. Não estamos, porque o PS descobriu tarde que era positivo ter contas saudáveis.

E falta muito para que as contas fiquem estruturalmente saudáveis. Ou transformamos estruturalmente a despesa pública, coisa que não sucedeu nos últimos quatro anos, ou tudo não passará de um brilharete circunstancial. Melhor esse do que nenhum, é certo. Mas para que ele valha a pena, é preciso acreditar no princípio, atuando em conformidade. Isso é que ainda está para ver.

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de

Patrocinado

Apoio de