Tiros no pé

Como se o país não tivesse já o suficiente com que se preocupar, a última semana foi passada a discutir se faz ou não sentido que um primeiro-ministro integre a comissão de honra de um candidato às eleições de um clube. A resposta pode ser dada já: não faz. Mas vale a pena olhar para a forma como António Costa geriu mais esta crise e, sobretudo, para a essência do problema. A maioria de nós tem uma preferência clubística, uma tendência política, pode acreditar ou não em Deus. Qualquer escolha é individual e deve ser vivida em total liberdade. Mas há cargos e funções que desempenhamos que nos devem obrigar a um particular recato. Em nossa defesa, mas, sobretudo, em defesa das instituições que representamos.

Um dirigente político tem todo o direito a ser do Benfica, do Sporting ou do Porto. A ser de esquerda, do centro ou de direita. Só não pode - não deve - misturar as suas convicções políticas ou a sua paixão clubística com o exercício da sua função.

Que António Costa é do Benfica toda a gente sabe e não vem daí mal nenhum ao mundo. Agora que aceite fazer parte de uma disputa eleitoral no seu clube, enquanto terceira figura do Estado, é inaceitável. E revela, pior que isso, uma total falta de bom senso.

Para a substância do caso, é pouco relevante se António Costa integra a comissão de honra de Luís Filipe Vieira, de Noronha Lopes ou de Rui Gomes da Silva. Seria sempre, em qualquer circunstância, igualmente grave. Porque o mais relevante, neste caso, não é saber em quem vai votar nas próximas eleições do Benfica, mas antes o facto de termos um primeiro-ministro a tomar posição pública num ato eleitoral onde a política não se devia meter.

O critério que enuncio aplica-se também aos autarcas. E, neste capítulo, o que não falta pelo país são telhados de vidro. Se, em Lisboa, Fernando Medina deixou que o seu nome fosse colocado na comissão de honra de Luís Filipe Vieira, no Porto Rui Moreira aceitou integrar a lista para o conselho superior de Pinto da Costa.

E não cola o argumento de que António Costa, Fernando Medina ou Rui Moreira aceitaram colocar-se nestas posições a título pessoal. O cargo de primeiro-ministro ou de presidente de câmara não é algo que se ocupe apenas no horário de expediente, de segunda a sexta-feira. Institucionalmente, um primeiro-ministro ou um presidente de câmara são sempre chefes de um executivo, 24 horas por dia, sete dias por semana, 365 dias por ano. Sempre que permitem esta mistura entre política e futebol, arrastam com eles as instituições que representam e o próprio Estado português.

Por fim, olhemos para a forma como António Costa - conhecido pela sua habilidade política - lidou com a situação que ele próprio criou. O desprezo, a arrogância e a irritação com que respondeu, pela primeira vez, publicamente à notícia são bem reveladores do incómodo político que estava criado. O silêncio do Partido Socialista durante quase uma semana, sem que ninguém tenha vindo a terreiro defender o primeiro-ministro das críticas, só acentuou ainda mais o embaraço.

Acabou por ser Luís Filipe Vieira a "resolver" o problema, retirando António Costa e Fernando Medina da comissão de honra, numa tentativa última de matar de vez o assunto. Nunca saberemos se por iniciativa própria ou a pedido dos próprios. Mas sabemos que, desta vez, António Costa foi pouco hábil e, para quem tiver memória, este tiro no pé que o primeiro-ministro disparou sobre si próprio ainda lhe pode vir a custar muito caro.

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