Um bloco central de palácios

Marcelo e Costa têm interesses convergentes. Marcelo quer diferenciar-se de Cavaco, mantendo o seu perfil popular, de proximidade e uma capacidade singular para se afirmar para além das fronteiras do seu espaço político. Costa precisa de ter mais pontos de apoio à sua governação do que os frágeis equilíbrios à esquerda.

Durante a campanha e no discurso de vitória, Marcelo estendeu a mão ao Governo, à estabilidade política e, pelo caminho, a António Costa. O primeiro-ministro, na sua breve reação desde São Bento (note-se), com o seu conhecido pragmatismo, devolveu os cumprimentos. Fica assim sugerida uma nova coligação política: um bloco central de palácios. Uma coligação pré-anunciada entre o Palácio de Belém e o de São Bento.

Mesmo que por motivos distintos, Marcelo e Costa têm interesses convergentes. Marcelo quer diferenciar-se de Cavaco, mantendo o seu perfil popular, de proximidade e uma capacidade singular para se afirmar para além das fronteiras do seu espaço político; e Costa precisa de ter mais pontos de apoio à sua governação do que os frágeis equilíbrios à esquerda - até para reconquistar o centro perdido.

Com apoio em Belém, António Costa enfrenta agora um "trilema". Governa com apoio parlamentar à esquerda; tem um vínculo europeu inegociável e um compromisso tático e estratégico com Marcelo. António Costa fica, no imediato, com mais possibilidades. Falhando o apoio à esquerda, algum suporte encontrará em Belém; falhando as pontes para o centro e para o centro-direita promovidas desde Belém, poderá recorrer aos partidos à esquerda. Já o vínculo europeu, pelo que se percebe, é um muro de betão, contra o qual a soberania política portuguesa acabará por chocar com estrondo. Em todo o caso, António Costa tem hoje mais possibilidades do que tinha ontem para gerir os equilíbrios de geometria variável em que assentará a sua governação.

Até aqui tudo bem. Ou talvez não. Marcelo, o popular e o conciliador, convergirá com o Governo enquanto a convergência não afetar a sua própria popularidade e até ao momento em que o processo de reconstrução da direita estiver concluído; à esquerda, a competição entre PCP e BE (e entre BE e PS) acabará por emergir. Quanto a este aspecto, os maus resultados somados dos candidatos às primárias presidenciais do PS (27%, bem abaixo dos já baixos resultados do PS nas legislativas) e o péssimo resultado do candidato do PCP (182 mil votos é uma das votações mais baixas de sempre nos comunistas em eleições de primeira ordem), comparado com o ótimo resultado da candidata do BE, são nuvens negras no horizonte. Quanto à Europa, a gestão do dossier BANIF a partir de Bruxelas não permite outras leituras: sobre a soberania nacional paira uma espada de Dâmocles.

Mas, como é sabido, no longo prazo todos os governos estão mortos. E a verdade é que, no curto e talvez até no médio prazo, o Governo de Costa ganhou um suplemento de oxigénio.

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