Um estado inconsistente é um estado sem autoridade

Esta manhã, falo-vos desde Viena, onde estou por uns dias. Para entrar na Áustria, tive, naturalmente, de apresentar um teste PCR negativo à Covid. Mas para fazer check-in no hotel ou ir ao restaurante também necessitei disso. Na Áustria, não há praticamente atividade num local fechado que não exija a apresentação de um teste Covid negativo ou, em alternativa, de um certificado de vacinação ou de imunidade. Isto conduz a um grau de testagem da população, e correspondente controlo da pandemia, muito superior ao nosso. De acordo com os últimos dados do Our World in Data, a Áustria realizou oito vezes mais testes que Portugal. Leu bem, oito vezes mais. Claro que, para isto ser possível, a Áustria não se limita a exigir muitos mais testes aos seus cidadãos. Facilita-os, de várias formas. Na Áustria, há uma rede de centros de testagem gratuita. Mas é possível também fazer testes nas farmácias e em casa. E muitos destes testes são mais fáceis e menos desagradáveis do que as famosas zaragatoas que vemos todos os dias nas televisões portuguesas. Foi aqui que descobri que já existem testes PCR (os mais exigentes) através do simples gargarejar de um líquido. E até entregam em casa e depois passam a buscar. É natural que, com tanta facilidade, os austríacos tenham um grau de testagem muito superior ao nosso. Em consequência, é também natural que estejam a conseguir controlar melhor a pandemia do que nós e com a vida e a economia já de regresso a uma grande normalidade (não há máscaras ao ar livre e está praticamente tudo aberto e com horários normais).

Em Portugal, o primeiro-ministro voltou a imputar a responsabilidade pelo piorar da situação aos portugueses. Mas será que tal é justificado quando o nosso Governo nunca facilitou e universalizou a testagem, como tantos disseram ser fundamental nesta nova fase da pandemia? E é justo atribuir tais responsabilidades aos portugueses quando o próprio Governo tem mudado, com tanta frequência, a sua comunicação sobre a pandemia. Só podemos esperar um comportamento rigoroso dos cidadãos quando a mensagem pública é clara. Só podemos esperar a sua adesão às medidas adotadas pelo Governo enquanto este se mostrar digno de confiança. O primeiro-ministro veio, esta semana, dramatizar a situação pandémica devido ao disseminar da denominada variante indiana em Portugal. Mas, quando há aproximadamente duas semanas as autoridades britânicas alertaram para esse risco, o Governo português reagiu com indignação e o primeiro-ministro até usou um tom trocista para se referir ao número de casos dessa variante em Portugal. Hoje sabemos que o Governo português, ao contrário do britânico, ou ignorou esse risco ou não teve competência para o prever. Dados do Financial Times indicam que mais 90% dos casos em Portugal são hoje dessa variante, por comparação com menos de 20% no resto da União Europeia.

Temos uma gestão da pandemia sobretudo reativa e pouco transparente. O Governo parece gerir a pandemia como tudo o resto: à medida do que vai acontecendo e não prevendo o que poderá acontecer. Daqui resulta uma comunicação pública contraditória, incapaz de obter a confiança e adesão dos cidadãos.

Este problema ficou ainda mais patente no conflito público entre o Presidente, que afirmou que já não retrocederíamos no desconfinamento, e as medidas adotadas pelo Governo, poucos dias depois, retrocedendo nesse desconfinamento sobretudo na região de Lisboa. Esta contradição suscita desde logo um risco político. A autoridade do Presidente face ao Governo já estava enfraquecida pela forma como o primeiro-ministro tem ignorado as manifestações claras de perda de confiança em certos ministros por parte do Presidente. Ao tomar esta decisão, em clara contradição com a promessa do Presidente, o Governo está seguramente consciente da leitura política que tal suscita. Como não posso acreditar que o primeiro-ministro coloque em causa, de forma gratuita, a autoridade do Presidente, o Governo deve ter uma leitura bem mais dramática da evolução da pandemia do que o Presidente. Como tal é possível, face aos mesmos dados, é a dúvida que todos legitimamente colocamos. Quando esta dúvida acresce às contradições do próprio Governo na comunicação interna e externa sobre a pandemia, pedir às pessoas que adiram a novas medidas de confinamento é como ter um médico fumador a recomendar a alguém que deixe de fumar...

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