Um investimento pouco católico

Falar de dinheiro dá pano para mangas quando se trata de uma instituição com a história e os pecados da Igreja Católica. O tema já voltou a suscitar acalorados debates à luz da Jornada Mundial da Juventude, que este ano irá juntar um milhão (ou mais) de jovens em Lisboa. Quando foram aprovadas as autorizações de despesa por parte do Governo, a que se juntam investimentos da Câmara Municipal de Lisboa, não faltaram críticas à aplicação de verbas públicas num evento confessional. Essa é, ainda assim, uma falsa questão. Basta olhar para anteriores jornadas e torna-se fácil perceber o efeito que uma iniciativa de tamanha dimensão tem na economia nacional e sobretudo local, ao mesmo tempo que projeta a imagem do país à escala global.

Tal não implica, ainda assim, que se feche os olhos às despesas efetuadas. Algumas são fáceis de justificar e aceitar. Quando olhamos para a requalificação do aterro sanitário de Beirolas, não há dúvidas de que a intervenção deixará em herança, aos munícipes de Lisboa e Loures, uma nova área verde e infraestruturas capazes de permitir a realização de grandes eventos no futuro. Mais difícil, contudo, é entender o custo da estrutura em que irá celebrar-se a eucaristia de encerramento da Jornada, com a participação do papa Francisco.

Além da verba divulgada de 4,24 milhões de euros, numa obra entregue por ajuste direto à Mota Engil pela Sociedade de Reabilitação Urbana Lisboa Ocidental, há que somar mais um milhão de euros adjudicados a 15 de dezembro, para a execução das fundações indiretas do altar-palco. Para se perceber a ordem de grandeza em causa, compare-se os 5,24 milhões com uma obra recentemente adjudicada, o estádio municipal de Espinho, entregue pelo valor de 4,47 milhões de euros. Estamos a falar, contas redondas, de um pequeno estádio municipal.

Curiosamente, o tema já tem merecido debate por parte de analistas em anteriores jornadas mundiais. A de Cracóvia foi a menos cara de sempre, mas mesmo nessa altura o Campus Misericordiae, onde decorreu a cerimónia de encerramento, custou 3 a 4,5 milhões de euros (montantes que variam consoante as fontes). Um gasto considerado desnecessário por elementos do clero ligados à organização da Jornada, que admitiram na altura ser possível rever as infraestruturas com um plano menos ambicioso relativamente aos palcos principais.

Claro que poderá sempre alegar-se, como explica a Câmara de Lisboa, que o grandioso cenário ficará para futuras iniciativas. Dificilmente haverá eventos regulares que justifiquem um investimento com esta escala e características. E a questão é, acima de tudo, simbólica. Percebe-se que um evento desta dimensão tenha custos avultados e mereça apoios públicos. Percebe-se que haja condições dignas para as celebrações. Não se entende um projeto megalómano para um evento que deverá celebrar princípios contrários à ostentação e ao desperdício, mais ainda num tempo que é de crise e de carência para tantos cidadãos em Portugal e no Mundo.

Marcada pelo escândalo dos abusos sexuais, cujo alcance ainda iremos perceber em fevereiro, a Igreja portuguesa tem na Jornada uma oportunidade de renovação e de purificação. Mas só uma profunda autenticidade, humildade e total coincidência entre os valores que professa e a vida poderá sarar as intensas feridas abertas. Gastos inúteis são o inverso da humildade e da humanidade exigidas a quem tem a missão de demonstrar que o amor de facto habita entre nós.

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