Um portal em colapso, ou a anormalidade no país

O aviso tinha sido deixado pelas associações de diretores das escolas antes de iniciado o processo, e o prognóstico revelou-se certeiro. Os pais que nos últimos dias têm passado horas de volta do computador, a tentar sem sucesso concluir os processos dos filhos no Portal das Matrículas, deparam-se com o permanente bloqueio do sistema. Seja devido ao ataque informático que o Ministério da Educação diz ter sofrido, seja devido à falta de preparação do portal para lidar com tão elevado volume de acessos em simultâneo, certo é que o desespero dos pais é acompanhado de sobrecarga das escolas, obrigadas a dar resposta aos pedidos de ajuda dos encarregados de educação.

Perante o colapso do portal, o Ministério da Educação fez marcha atrás na obrigatoriedade inicial de inscrição para todos os alunos, passando a ser obrigatória apenas para os que vão começar um novo ciclo ou pretendem mudar de escola. Uma decisão que deveria ter sido tomada logo de início, retirando carga burocrática aos milhares de casos em que está em causa uma mera renovação de matrícula, sem alterações no percurso escolar. Com este ziguezague, a tutela demonstra falta de capacidade de previsão e de planeamento, ficando mais uma vez a sensação de que a máquina do Estado falha nas grandes operações, apesar de anos e anos de programas de modernização e simplificação administrativa.

Isto numa altura de particular ansiedade para as famílias, com a confusão que se instalou em torno da entrega dos manuais escolares e as muitas incertezas em relação ao calendário escolar e ao regime em que irão decorrer as aulas no próximo ano. Espera-se capacidade redobrada de planeamento e organização por parte das estruturas do Ministério da Educação. O que se dispensa é exatamente o caos instalado em torno de processos burocráticos que deveriam estar oleados.

O Portal das Matrículas acaba por ser um sinal exemplar de uma ineficácia que se multiplica noutras áreas e setores, mostrando a anormalidade de um país que, depois de meses excecionais, precisaria de soluções também excecionais para mitigar os efeitos das múltiplas frentes de crise abertas pela pandemia. Já não se trata (apenas) de conter a propagação da covid-19, mas de conseguir dar respostas em todas as outras áreas, para que não se tornem ainda mais devastadores os danos na vida dos cidadãos.

Como noticia hoje o "Jornal de Notícias", os centros de saúde estão sem capacidade para responder às solicitações dos utentes. A Associação de Médicos de Família estima que em três meses tenham ficado por fazer 15 mil diagnósticos de cancro e há um milhão de doentes crónicos para quem é essencial conseguir recuperar tempo perdido no acompanhamento.

O momento inicial de ataque à pandemia e de confinamento exigiu do Governo respostas imediatas e corajosas. Mas é agora que a equipa de António Costa é realmente testada e tem de dar provas de que consegue governar em tempos duros e exigentes. É nos momentos de crise que mais se precisa de excelência, rigor nas opções tomadas e muita capacidade de planeamento para antecipar problemas e evitar obstáculos desnecessários. O Governo não pode, a partir de agora, apelar a consensos ou ao sentido de responsabilidade da Oposição.

Não é tempo de exigir unidade ou solidariedade, porque apenas poderá queixar-se de si próprio se não conseguir cumprir o seu papel.

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