Uma carta aberta que vale a pena ler

Mais de 150 escritores, académicos e intelectuais ― entre os quais nomes tão politicamente diversos como Noam Chomsky, Salman Rushdie, Steven Pinker, Ann Applabeum, Gloria Steinem, Margaret Atwood e Martin Amis ― assinaram esta semana na revista Harpers uma carta aberta pela justiça e pelo debate aberto.

Vale a pena ler a carta, assinada por gente tão distante politicamente uma da outra mas que concorda no essencial: sem liberdade de expressão e sem tolerância pela opinião do outro não é possível haver debate e progresso académico ou cultural.

Os autores denunciam a crescente "intolerância" de um certo ativismo em relação a ideias discordantes, que permanentemente se indigna e agita exigindo boicotes, censura, despedimentos, tudo em nome de uma conformidade ideológica.

É a chamada cancel culture por referência às exigências de vetos e às acusações contra pensadores ou professores ou qualquer intérprete que se desvie de uma posição que deva ser considerada a norma; ou ainda woke culture, por referência a uma atitude de alerta permanente, sem descanso, capaz de ir rever tudo o que alguém disse ou escreveu durante toda a sua vida, mesmo sem contexto.

Não se trata de uma carta contra os protestos pela justiça racial e social, por maior igualdade e inclusão, que se têm vivido nos Estados Unidos e um pouco por todo o Mundo. Pelo contrário, a carta saúda esses protestos.

O ponto da carta é outro: dizer que a restrição do debate tanto pode ser feita por um Governo repressivo como por uma sociedade intolerante, e que essa restrição "prejudica os que não têm poder e reduz a capacidade de participação democrática. de todos".

"A livre troca de informações e ideias, a força vital de uma sociedade liberal, está a tornar-se cada vez mais limitada. Era algo esperado por parte da direita radical, mas a atitude censória está a expandir-se na nossa cultura", refere a carta, descrevendo situações: "editores foram demitidos por publicar artigos polémicos; livros foram recolhidos por suposta pouca autenticidade; jornalistas foram proibidos de escrever sobre certos assuntos; professores foram investigados por citar determinados trabalhos". Em resultado, "os responsáveis por instituições, numa atitude de pânico e controle de danos, aplicam punições duras e desproporcionais em vez de aplicar reformas ponderadas".

E não se confunda isto com uma espécie de aproximação a Trump, aliás impossível tendo em conta alguns dos signatários, como Chomsky. Na carta, os autores qualificam o presidente de "ameaça à democracia", mas alertam "a maneira de derrotar as más ideias é a exposição, o argumento e a persuasão, não tentar silenciá-las ou querer expulsá-las. Como escritores, precisamos de uma cultura que nos deixe espaço para a experimentação, a tomada de riscos e os erros. Devemos preservar a possibilidade de discordar de boa fé sem consequências profissionais funestas".

É uma carta que vale a pena ler, sobretudo num tempo em que falamos de proibir discursos de ódio, correndo o risco, nesta senda, de acabarmos a proibir o discurso que odiamos.

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