Uma legislatura mais instável, mais ideológica, mais confrontacional e mais emocional

O primeiro debate entre os partidos com representação parlamentar, e, portanto, já incluindo o Chega, a Iniciativa Liberal e o Livre, já decorreu, na RTP, e permitiu antever uma legislatura mais instável, mais ideológica, mais confrontacional e mais emocional.

1. Mais instável, porque os partidos à esquerda deixaram de estar no mesmo barco. PS, Bloco, PCP, PAN e Livre estão cada a um correr em pista própria, num cenário económico menos favorável do que o que tivemos nos últimos anos, e sem o fantasma do governo da troika a servir de cimento.

A estabilidade pode ser importante, mas há partidos a lutar pela sobrevivência ou pela existência, e isso vale quase sempre mais do que a estabilidade. A cada dificuldade, todos olharão para si e para o lado, antes de dizerem o que quer que seja a António Costa.

Até hoje, Bloco e PCP quiseram mostrar que podiam dar estabilidade. O jogo agora é outro: nenhum quer pagar o preço de deixar outro partido de esquerda à solta. E se o Bloco tinha razões para não temer o PCP, está agora confrontado com o crescimento do PAN e a revelação do Livre.

2. Mais ideológica e segmentada, porque os três novos partidos que entraram para o Parlamento trazem agendas ideológicas bem marcadas. Querem distinguir-se ideologicamente, querem afirmar a sua coerência, querem mostrar que não são mais do mesmo, precisam de atacar, senão mesmo destruir, quem está.

O Chega e a Iniciativa Liberal e o Livre só têm um deputado cada um, por isso optarão por propostas simples, ideológicas, incompatíveis entre si, desviando o debate político do pragmático para o teórico, do quotidiano para o paradoxal.

E com isso arrastarão os restantes partidos, obrigados a tomar a posição, a não ficar para trás. O CDS e o PSD que já sabiam concorrer entre si, vão agora ter a concorrência da Iniciativa Liberal e do Chega, e essa concorrência vai fazer-se pela ideologia. O mesmo vai suceder à esquerda.

3. Mais confrontacional, porque, para além da questão ideológica, que traz sempre confronto, há agora os dois extremos no parlamento, à direita e à esquerda, e esses extremos precisam mutuamente um do outro para existir, para se afirmar.

Não há partido de esquerda que não confronte o Chega, sabendo que isso só o fará crescer. Mas esses partidos querem o crescimento do Chega porque isso lhes dá legitimidade para existir. Teremos discussões bem mais confrontacionais porque os extremos existem e precisam desse confronto e querem provocar esse confronto.

4. E mais emocional, porque, com tantas vozes ao mesmo tempo, num momento em que as pessoas só ligam a títulos, a capas, os partidos precisam de chamar a atenção, e isso tem sido feito, pela Europa fora, com a dramatização, com a emoção sobre a razão. Vamos ter debates parlamentares mais emocionais, e se isso pode ser mais entusiasmante do ponto de vista político e jornalístico, não estou certo de que o seja do ponto de vista do interesse do país, pelo menos para mim que valorizo muito a razão em política.

Num tempo em que precisamos de reformas, e estas se fazem com largos entendimentos, não sei se teremos condições para elas nesta legislatura. Os tempos estão de confronto e competição, não de entendimento.

Se tenho poucas dúvidas de que esta será a Assembleia que teremos, com um governo que pode não chegar ao fim, já não estou certo de quais os seus efeitos no sistema partidário.

Há a tentação de olhar para a realidade política como se fosse uma fotografia. Mas ela é um filme, que evolui a uma velocidade cada vez maior.

Vivemos tempos de dispersão, de segmentação, e essa tendência parece inescapável. Mas ela não dura para sempre, como o exemplo espanhol, aqui ao lado, nos está hoje a mostrar. Mas pode durar algum tempo.

E à direita, que é aquilo que agora me interessa, a empreitada parece-me evidente: como conseguir, no seio desta dispersão, e sem a negar ou contrariar, encontrar um projeto agregador e mobilizador e maioritário?

Mas isso fica para outras reflexões noutras semanas.

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