Uma oposição eficaz. Sem extremistas

Não há motivos para pôr em causa a maturidade do nosso sistema político e do equilíbrio entre instituições, ou desconfiar da capacidade de diálogo de António Costa, embora seja impossível ignorar o passado e a má memória deixada pelas maiorias absolutas que já tivemos. Curiosamente, os riscos de eventuais excessos e a questão da vigilância sobre uma maioria foram levantados pelo próprio candidato socialista, em plena campanha eleitoral, chamando o presidente da República ao papel ativo de fiscalizador.

Este ajustamento na relação entre Belém e São Bento tem sido muito analisado nos últimos dias, mas é importante enquadrar o papel dos vários poderes e não esvaziar o Parlamento das suas funções. É verdade que uma oposição minoritária tem menos margem de manobra, mas é ainda mais relevante que se mantenha forte, ativa e eficaz num contexto de maioria absoluta, perseguindo um nível de elevada exigência em relação à governação.

À esquerda, temos PCP e BE reduzidos em expressão e em perda de espaço político, penalizados pelos eleitores. À direita, o partido que deveria liderar a oposição ao PS vê-se novamente mergulhado numa crise de liderança.

Percebe-se que os potenciais candidatos à presidência do PSD desejem que Rui Rio beba o seu cálice até ao fim, mas não é bom para o partido, e menos ainda para a democracia, que os sociais-democratas mantenham por demasiado tempo a porta de saída aberta. Até porque aquele que venha a ser o novo rosto do partido estará, é quase certo, fora da bancada parlamentar, o que reduz ainda mais a sua capacidade de se fazer ouvir.

A questão ganha particular relevância num contexto de crescimento do Chega. Não adianta negar o fenómeno ou minimizar o impacto dos resultados conquistados e da capacidade de implantação numa malha territorial consistente. Claro que faz parte do estilo populista e dramatúrgico de André Ventura dizer que vai atrás de António Costa, como ouvimos na noite eleitoral. Mas esse estilo é eficaz e a prova da capacidade de atração foi dada nas urnas.

Ventura vai tentar protagonizar o papel de opositor do primeiro-ministro. E terá agora mais tempo de antena, um exército de mais 11 soldadinhos formados na mesma cartilha, bem como os direitos adicionais que lhe advêm do facto de ser a terceira força mais votada. Exemplo disso mesmo é o facto de Chega e Iniciativa Liberal terem direito, de acordo com as regras do Parlamento, a indicar um vice-presidente cada.

Essas indicações têm, ainda assim, de ser confirmadas através do voto secreto dos deputados e tudo indica que a vice-presidência do Chega não passará. Mas levantam-se questões novas com as quais a casa da democracia vai ter de aprender a lidar. Será fácil ao líder do Chega vitimizar-se e invocar a legitimidade dos votos que o país lhe entregou. E essa será a maior dificuldade: combater por dentro uma força extremista que cresceu, e compreender os eleitores que entenderam dar pasto a esse fogo. É um desafio difícil, que obriga a oposição a um duplo cuidado. Terá de manter vigilância e sentido crítico em relação ao Governo, evitando ao mesmo tempo a radicalização do debate.

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