Uma tropa

António Pedro, poeta e pintor surrealista, participante na primeira exposição surrealista em Portugal num 4° andar da rua da Trindade, Lisboa, 1949 (as histórias do movimento que conheço começam geralmente por dizer que o surrealismo aconteceu na Europa entre a primeira guerra mundial e a segunda - mas graças à ditadura de Salazar e talvez também, vá lá saber-se, à periferia geográfica, entre nós tal só aconteceu já a segunda tinha acabado), António Pedro, dizia eu, que o conhecia bem por ter ido aos 15 anos aprender pintura no atelier dele ao Jardim da Parada, em Campo de Ourique, e que, homem sábio, em vez de me propôr qualquer tema que estimulasse modernismos meus me pôs a copiar a óleo sobre tela um boi de loiça das Caldas, enquanto ele, Vespeira, Cesariny e outros, tapando cada um a sua parte, pintavam cadavre exqui segundo as regras da arte. Perseverei durante uns seis meses, animado pela presença na sala ao lado de secretária esguia, morena, de cabelo preto encaracolado que dactilografava fichas redigidas pelo Professor José Pedro Machado para a primeira edição contemporânea do Dicionário do Moraes, enquanto me fazia fantasmar todas as noites, e pelas conversas. (Em plataforma detrás de eléctrico, Cesariny apontou para roda de autocarro que nos ultrapassava e gabou-lhe a força poética).

Passado pouco tempo, António Pedro foi viver para o Porto, onde fundou e dirigiu o Teatro Experimental (durante muitos anos a única companhia de teatro séria do país, mais do que isso, a única cujas actrizes e actores não soavam ridículos). Num fim de tarde de inverno, à espera de autocarro nos Restauradores, dou por Pedro ao meu lado. "Mestre" perguntei-lhe com arrogância lisboeta "como é que se pode viver no Porto?". "Ó filho, o Porto é uma cidade de província da Europa. E Lisboa não é nada" respondeu ele. Da Europa sabia alguma coisa, sobretudo de Londres, onde vivera durante os bombardeamentos alemães da segunda guerra mundial, trabalhando como locutor no serviço português da BBC, o que lhe granjeou respeito perpétuo daqueles ilhéus. Foi a falar desse tempo em tempo de paz - a segunda guerra mundial terminara em 1945, as nossas no Ultramar ainda não tinham começado - que me disse ser o português a única língua que conhecia em que "tropa" além de significar "forças armadas" significava também "uma cambada". Lembrei-me dele esta semana. (Poderia ter começado por aqui, sem surrealismo, nem teatro, nem Porto mas, ultimamente, gosto de deixar nota de lembranças).

As Forças Armadas deram-nos quase meio século de democracia, sem derramamento de sangue - na metrópole - e pedindo apenas em troca para sair de África. Tinham ajudado a dar-nos antes quase meio século de ditadura mas essa, como diria Zeca Afonso, assim que viu os cravos a malta esqueceu-se dela. E agora? A cambada de Tancos? Pátria, verdade, honra, serviço que valor têm? Como se metem na ordem heróis do mar e nobre povo assim?

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