Vamos conseguir salvar o planeta?

Nesta cimeira do clima que começa em Madrid o que é que se pretende?

A prioridade é tentar fazer renascer o Acordo de Paris, alcançado em 2015, mas que os Estados Unidos, depois da eleição de Donald Trump, boicotaram.

A ideia do Acordo de Paris era a de limitar o aquecimento global a um máximo de dois graus (agora pretende-se um grau e meio) acima da temperatura média que o planeta registava antes da era industrial, no século XIX.

Para isso os países tinham de reduzir ou abandonar várias atividades industriais poluentes e utilizar a maior quantidade possível de recursos energéticos sem emissões de gases nocivos e renováveis.

O capitalismo até inventou um nome para esse novo negócio: descarbonização da economia, um objetivo que leva estados e grandes empresas e investirem gigantescos recursos em energias "limpas", como a solar e a eólica, e a lançar campanhas de propaganda mundial para convencer pessoas e estados a pagarem mais às companhias de eletricidade pelo consumo de energia "verde" do que pagam pela energia produzida com combustíveis fósseis.

Os Estados Unidos são o maior poluidor do mundo e a sua indústria atrasou-se (em tecnologia e, sobretudo, em competitividade comercial) em relação à China e à União Europeia nesse novo negócio da energia "verde".

Quando Donald Trump tomou posse como Presidente dos Estados Unidos levantou dúvidas sobre as previsões dos cientistas quanto aos efeitos, na vida real, das mudanças climáticas.

Trump tirou o seu país do Acordo de Paris, ajudou a manter competitivo o setor industrial do seu país, que tem assim a possibilidade de adiar a reconversão energética, mas, ao mesmo tempo, dada a grandeza económica norte-americana, tornou quase inalcançável o plano mundial de limitar o crescimento da temperatura média do planeta.

A dificuldade em generalizar o consumo de energia limpa é ainda mais difícil e sai mais caro por causa do quase abandono da energia nuclear, que, quando funciona, não polui a atmosfera mas que tem um potencial letal dramático, como foi exemplificado pelos acidentes de Chernobyl (1986) e Fukushima (2011), o que leva as populações a terem medo da instalação de centrais nucleares.

Ao mesmo tempo que pretendemos salvar o planeta, aumentamos drasticamente o consumo de energia, não só porque tudo o que fazemos no nosso quotidiano consome energia - graças ao desenvolvimento industrial, aos transportes, às maravilhas da informática e das comunicações de alto débito, com e sem fios - mas também porque dezenas de países anteriormente pouco desenvolvidos do ponto de vista tecnológico, sobretudo na Ásia e na América do Sul, estão agora na vanguarda industrial do planeta e, com isso, passaram também a ser grandes consumidores energéticos.

É neste quadro - com o país mais poderoso do mundo a recusar o compromisso para reduzir os gases perigosos para o clima; com largos setores populacionais do planeta a dependerem o seu modo de vida do consumo energético excessivo ou poluente; com um negócio da energia "verde" contaminado pela tradicional ganância capitalista - que políticos, especialistas, cientistas e até uma miúda de 16 anos que faz de arauto da catástrofe tentam inverter o aparente caminho que pode não ser a destruição do planeta mas será, certamente, o seu enorme empobrecimento ecológico e um drama humano, que causará milhares e milhares de mortes em incêndios, inundações, furacões, deslize de terras, subida da água do mar, degelo dos polos, calor, frio, tempestades incontroláveis.

A boa vontade e o bom senso ecologista (até o ambientalismo pouco radical), estão entalados pela pressão da sociedade globalizada e financeira que construímos e servem mais de arma de propaganda e contrapropaganda entre quem tem pânico do futuro e quem tenta ignorar a realidade da degradação ambiental.

Vamos salvar o planeta da morte?

É provável que sim, mas enquanto a ganância capitalista governar o planeta só teremos a certeza de o conseguir se o negócio "verde" der mais lucro que o negócio da poluição - e isso, além de ser triste para quem acredita na capacidade humana de se governar a pensar no bem comum, está ainda bem longe de vir a acontecer.

Por isso, esta cimeira de Madrid, esta cimeira do clima, será frustrante.

Patrocinado

Apoio de

Patrocinado

Apoio de

Outros Artigos Recomendados