Vejam os alemães e não tenham medo

Ainda há quem se queixe da mera hipótese de termos de ir às catacumbas ressuscitar uma qualquer espécie de Bloco Central. Já não aquele que salvou o país, a meio da década de 80, feito entre Mário Soares e Mota Pinto, com ministros de um lado e do outro, mas um mais ao jeito de António Guterres e Marcelo Rebelo de Sousa, no final do século passado, para deixar o país seguir em frente e entrar na Zona Euro.

Da esquerda recebemos uma crise política que nos conduziu às eleições antecipadas e da direita recebemos como resposta a mesma instabilidade, para já com epicentro nos Açores, no futuro onde quer que pensem ser possível uma aliança, feita de qualquer jeito, com uns oportunistas que, ainda por cima, se exibem orgulhosamente racistas.

Aqueles que à direita se autoconvenceram sobre o direito de contar com os deputados do Chega, com comparações estapafúrdias entre este partido e o Bloco ou o PC, sabem agora que nenhum grau de confiança se pode ter em relação a Ventura. Pior mesmo devem estar todos aqueles que, do alto da sua sapiência, proclamaram que o dilema era de solução fácil, porque bastaria ao PSD, em caso de uma maioria parlamentar feita com os deputados do Chega, bastaria exigir a Ventura que apoiasse esse governo, sem nada em troca, ou o fizesse cair, ficando responsável por não querer um governo não socialista. Como se Ventura fosse rapaz de passar cheques em branco. Logo ele que tudo quer.

O mais espantoso em todos os que são tão à direita, tão à direita, que nem admitem a existência de qualquer virtude num centro moderado, é que tudo o que criticam à esquerda é exactamente o que estão desejosos por fazer à direita. Depois do "se eles [PS] se uniram à extrema-esquerda [PCP e Bloco], então nós [PSD e CDS] também temos direito a unir-nos à extrema-direita [Chega], temos agora a peregrina ideia de que é possível imitar António Costa, governando com uma maioria que não se tem, na base da ameaça: se não me deixam ficar aqui, vêm para cá outros que vocês ainda gostam menos. A Democracia precisa de constantes aperfeiçoamentos, para que a espaços não pareça a muita gente "o pior dos regimes" sem a "excepção de todos os outros".

No centro da Europa, onde a economia anda a alta velocidade e a política é feita de forma ponderada, demoram meses a negociar coligações pós-eleitorais. Na Alemanha, por exemplo, a primeira decisão foi a de varrer qualquer hipótese de deixar a extrema-direita chegar ao poder e quem deu o exemplo foi a CDU de Angela Merkel. Agora, o SPD não se coibiu de negociar uma aliança com os liberais, que tantas vezes fizeram aliança com a a CDU, juntando-lhe os verdes com quem já tinham governado. Em mais de setenta anos, a Alemanha por uma única vez deu maioria a um só partido. Por três vezes houve governo do Bloco Central, ou GroKo (grande coligação) como lhe chamam por lá. Não consta que dai tenha vindo mal ao mundo ou que isso tenha feito crescer a extrema-direita de forma a tornar inviável a democracia alemão, como dizem que aconteceria por cá. Há muito quem viva com medo de fantasmas.

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