Velhos

George Bernard Shaw, dramaturgo, crítico musical fã de Wagner, desconfiado de quem, com menos de trinta anos, não fosse socialista e quem, com mais de trinta, o fosse que morreu em 1950, aos noventa e quatro, depois de queda em que partira o colo do fémur, disse a jornalistas que o esperavam à entrada do hospital para onde fora levado: "Se eu sobreviver a esta, é porque sou imortal".

Quase setenta anos depois o que me espanta na lembrança desta história não é a fanfarronice de Shaw que era useiro e vezeiro em tiradas provocatórias, tal como o eram muitos dos seus compatriotas coevos. A Inglaterra passara o mando do mundo para os Estados Unidos da América em 1918 (ou melhor, em 1918 os Estados Unidos tinham-lhe tirado o mando do mundo) mas houvera na história decadências piores e, embora acabando-a sem poder com uma gata pelo rabo, tinha sido um dos grandes vencedores da segunda guerra mundial, em 1945, depois de anos sozinha - embora com Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte - a confrontar a sinistra ameaça de Hitler, com direito a lugar cativo no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (juntamente com os Estados Unidos, a Rússia, a China e a França - esta posta lá pelo génio de De Gaulle, que conseguira fazer passar uma França colaboracionista dos nazis por uma França resistente aos nazis e por empurrão de Londres que queria sentir ao seu lado em Nova York algum conforto europeu) criada logo a seguir e ainda viva da costa, com o mesmo Conselho de Segurança de que almas generosas insistem de vez em quando em tentar mudar a composição "por já não reflectir a distribuição de poder no mundo", não o tendo conseguido até agora. Parecem não ter percebido que tal mudança só viria a seguir a Terceira Guerra Mundial com novo ramalhete de vencedores. Ora, pelo menos por enquanto, ninguém quer a Terceira Guerra Mundial.

(Quanto às graçolas agressivas de Shaw e de alguns dos seus contemporâneos, houve uma troca célebre de galhardetes. Shaw estreava peça sua no West End de Londres e mandou dois bilhetes a Churchill com cartão dizendo que um era para ele e outro para um amigo - se ainda tivesse algum. Churchill respondeu que à noite da estreia não poderia ir mas agradeceria bilhete para a noite seguinte - se chegasse a haver segunda representação).

Não. O que me espanta é morte aos noventa e quatro anos ser notícia como haveria sido nessa altura outra morte qualquer em idade assim e não só a de figura pública; nessa altura e em qualquer outra altura desde que começara a haver jornais na Europa bem como em todo o tanto tempo antes desse feito até ao paleolítico - idade da pedra lascada -, ao aparecimento do homo sapiens, com ou sem Adão e Eva de permeio, segundo crenças ou falta delas de quem olhe para o céu à noite e veja as estrelas, convencido de que elas estão lá em cima. Mistérios, tal o facto de numa série finita de números o número total ser o dobro dos números pares e numa série infinita serem o mesmo.

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