Vencer o medo, mudar de conceitos

Iniciámos o esperado "arranha-céus" de casos de Covid, o efeito abrupto de subida descrito noutros países que sentiram primeiro a aceleração causada pela variante Ómicron. Agigantam-se perguntas e receios sobre o que aí vem. E é natural que tenhamos medo, desde logo devido à grande incerteza quanto ao que podemos esperar. Estamos a adaptar-nos à medida que vamos sabendo mais sobre a nova variante, mas a ambivalência entre a aparente baixa gravidade dos efeitos na saúde e a elevada transmissibilidade torna difícil ajustar respostas.

Estamos já a sentir o risco de pressão sobre os cuidados de saúde, com responsáveis e sindicatos a alertarem para um fluxo excessivo nalguns serviços. Neste momento não há capacidade de resposta à distância e a Linha SNS 24 é incapaz de atender a torrente de chamadas, apesar dos anunciados reforços de pessoal e mudanças nos algoritmos para melhorar o atendimento e encaminhamento de utentes. Há, como já havia em todos os invernos, afluência massiva de doentes com manifestações ligeiras a serviços de urgência e centros de saúde. Com o aumento constante de casos, essa pressão vai agravar-se.

Por outro lado, o medo tem sempre uma componente individual, que pouco depende das explicações globais ou estatísticas sobre riscos. Podemos até considerar que a probabilidade de uma forma grave de doença é baixa, mas receamos que algo possa correr mal se os nossos forem afetados e queremos proteger pais, filhos, aqueles que nos são mais próximos.

Se as razões para o medo existem, importa ainda assim colocar todos os fatores em perspetiva e manter algum bom senso na leitura da situação. As condições de base são hoje muito distintas das que tínhamos há um ano. A cobertura da vacinação ronda os 90%, fizemos um relevante percurso de aprendizagem sobre os cuidados preventivos a manter, criámos rotinas de testagem e batemos recordes sucessivos na identificação de infeções. A leitura da situação epidemiológica não pode ser feita de forma cega, olhando apenas para o total de novos casos. Importa analisar internamentos e taxa de letalidade, estudar a relação entre doença grave e vacinação, enquadrar tantos fatores que não cabem nos boletins diários da Direção-Geral da Saúde.

São, aliás, todos estes fatores que justificam declarações como a de Manuel Carmo Gomes, que ontem admitiu uma eventual mudança estratégica. Apesar de não ser, de princípio, favorável a teorias de imunização pela circulação do vírus, o epidemiologista assume que essa poderá ser a única resposta possível, dadas as características da Ómicron e a pressão sobre o rastreamento e isolamento de contactos.

Neste contexto, é essencial uma comunicação adequada não apenas das instituições, mas dos media no seu papel de contextualização e mediação da informação. É necessário dar todos os enquadramentos disponíveis à população. Cabe-nos a nós, jornalistas, fazer todas as perguntas como sempre, mas evitando criar cenários quando ainda nem existem - e é um bom exemplo dessa criação de narrativas a insistência no encerramento das escolas.

A todos, coletivamente, esta pressão de casos nas próximas semanas exige maturidade e bom senso. Se os serviços telefónicos não dão resposta, se um teste rápido deu positivo mas não temos sintomas, não podemos correr para as urgências. Tal como os patrões não podem nesta fase ser burocráticos e devem simplificar procedimentos em relação às declarações de isolamento. Temos de manter comportamentos adequados e limitar contactos, para reduzir riscos de transmissão. E temos, adicionalmente, de evitar leituras maniqueístas da realidade. O

mundo não se divide entre gente cuidadosa e negacionistas, entre quem defende o confinamento e quem só quer andar à vontade: pelo meio há muitas nuances e variáveis.

É preciso, finalmente, saber esperar. Esperar que os serviços se adaptem e que os especialistas nos ajudem a definir a melhor estratégia para uma situação que é também ela nova. Como explicou a ministra da Saúde, estão a ser feitos contactos entre decisores políticos exatamente para tentar avaliar o melhor rumo a seguir. Mas o problema não é só sanitário, é social e até mental. Se tivermos de mudar de abordagem no combate à pandemia, teremos de refazer os nossos próprios conceitos e desmontar receios excessivos sobre a Covid. É de confiança e capacidade de pensar para lá do imediatismo do medo que precisamos.

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