Violência doméstica: é favor não desviar o olhar

Lindora, de 71 anos, foi agredida pelo marido com um martelo. Narciso, de 76 anos, suicidou-se de seguida. Quando na redação discutíamos a abordagem a este caso e o título da notícia, gerou-se um debate sobre a violência das palavras. E acabámos silenciados pela tirada de um colega: espantam-se mais com a violência das palavras do que com a brutalidade dos crimes.

Também ontem, no mesmo dia em que a violência recorrente entre Lindora e Narciso era relatada pelos vizinhos, Cláudia, atingida a tiro pelo ex-marido, continuava em estado crítico no hospital. E ao final da noite uma mulher de 38 anos era morta, também a tiro, à porta de casa. O autor dos disparos fugiu e as autoridades ainda investigam os contornos do crime.

Este ano já morreram quase tantas mulheres em contexto de violência conjugal como em todo o ano passado. A Associação Portuguesa de Apoio à Vitima (APAV) mostra-se alarmada com esta subida. Em média, a APAV regista 54 casos de violência doméstica por dia. O tema presta-se a títulos sangrentos e é verdade que abordagens sensacionalistas nos podem levar a desviar o olhar e remeter as notícias para o domínio dos casos de polícia.

A violência doméstica, contudo, não é um caso de polícia. Obriga à intervenção da justiça, envolve questões de segurança, mas é um problema de cultura. Um fenómeno demasiado frequente e visível na sociedade portuguesa. Estão subjacentes questões de igualdade de género, mas remete para temas ainda mais complexos sobre as relações interpessoais e familiares. A violência bruta parece nascer onde antes habitou o amor, mas na verdade importa refletir como ainda tantas vezes confundimos amor com posse ou dominação.

Portugal melhorou nos instrumentos de combate à violência, quadro legislativo e respostas sociais, mudança essa sinalizada na avaliação feita no âmbito da implementação da Convenção de Istambul. Mas há ainda muito a fazer e o Comité de Partes da Convenção deixa várias recomendações, a serem avaliadas em 2024.

O grupo parlamentar do PS, que recentemente promoveu um minuto de silêncio pelas vítimas de violência doméstica, promete iniciativas nesta legislatura. É urgente um compromisso coletivo em torno do tema, envolvendo protagonistas políticos, instituições públicas com responsabilidades neste trabalho multidisciplinar, instituições e ONG, sociedade civil.

Sílvia, Ana, Manuela, não são nomes ficcionais. São vítimas. E cada caso de violência deve sobressaltar-nos e comprometer-nos com a procura de uma intervenção mais profunda, mais eficaz e mais persistente.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de