Durão Barroso diz que Brexit "não é o fim do Reino Unido, nem da UE"

A propósito dos 30 anos da TSF, antigo presidente da Comissão Europeia recorda episódios como o "abandono" do Governo e a Cimeira das Lajes garantindo que "se tivesse a informação que tem hoje, faria diferente" em relação ao encontro que ditou o início da invasão do Iraque. Dos dias que correm, alerta para os riscos de uma União Europeia sem Reino Unido.

Num momento de profundo impasse em relação ao futuro do Reino Unido na União Europeia, Durão Barroso, em entrevista à TSF, no âmbito do Sons da História , rejeita um cenário de catástrofe, ainda que sublinhe que os aspetos negativos de uma eventual rutura.

"A União Europeia pode continuar perfeitamente sem o Reino Unido, mas é mau. Mau para a União Europeia, porque perde um dos principais membros, mas também para o Reino Unido, que deixa de estar num dos principais polos da economia mundial", explica o antigo presidente da Comissão Europeia, acrescentando que "hoje há três polos de poder a nível mundial do ponto de vista económico: os EUA, a Europa e a China", cuja força depende também da respetiva dimensão.

"O Reino Unido tem cerca de 60 milhões de pessoas, que nunca terão o mesmo nível de força do que, por exemplo, a China com mil e quatrocentos milhões", adianta. E, apesar da ameaça cada vez mais forte de um Brexit sem acordo, o também antigo primeiro-ministro garante que, não sendo um cenário que lhe agrade, "não é o fim".

"Não gosto da ideia, mas imagino. Aliás já existiu União Europeia sem o Reino Unido", afirma Barroso. "A União Europeia vai sobreviver e o Reino Unido também", vaticina, recordando que "existe Inglaterra bem antes de existir Comunidade Europeia. Portanto, não é o fim do Reino Unido, nem é o fim da União Europeia".

Lajes: uma cimeira "com a informação do momento"

Anfitrião de um encontro a que se atribui a antecâmara da invasão do Iraque pelos Estados Unidos em 2003, Durão Barroso reconhece que, "se tivesse a informação toda" que tem hoje, "faria diferente", mas afirma que a atuação que teve se baseou "na informação do momento, não com a informação que temos agora".

"Com certeza que, se eu tivesse a informação toda que tenho hoje, faria diferente, mas na altura tive de atuar com a informação que tinha disponível e que me estava a ser dada pelos meus aliados, pelos nossos aliados. E, desse ponto de vista, acho que tomamos uma posição que salvaguardou os interesses do país, que respeitou o direito internacional", explica o antigo chefe de governo, mostrando-se tranquilo em relação à opção tomada.

"Não houve nada que Portugal tivesse feito. Nós só enviamos uma pequena força da GNR para o Iraque depois de as Nações Unidas fazerem um pedido para a estabilização (do país), portanto nós não violamos nunca o direito internacional", assegura.

Insistindo que o país se limitou "a escutar o apelo de três dos principais aliados", Barroso assegura que "o papel de Portugal" se confinou à "organização da cimeira". "Mas eu acho que na altura com a informação disponível era uma decisão perfeitamente compreensível e aceitável. Nesse aspeto mantenho essa decisão", assevera o agora presidente do Goldman Sachs International.

Sampaio sabia e "deu apoio explícito à organização da Cimeira"

Distanciando-se das dúvidas geradas depois e da polémica em torno das revelações do livro que dava conta do desagrado de Jorge Sampaio, então Presidente da República, Durão Barroso garante que o chefe de Estado estava informado e apoiou a realização da Cimeira das Lajes.

"Na altura, o presidente Jorge Sampaio deu apoio explícito à organização da Cimeira das Lajes. Eu, aliás, praticamente, a única pessoa que consultei quanto à sua realização foi o presidente Sampaio", conta lembrando que Sampaio era "o Comandante Supremo das Forças Armadas". "A base das Lajes é uma base militar e, obviamente, o primeiro-ministro nunca faria nada nas Lajes se não tivesse o agrément do presidente da república", refere. Barroso garante, por isso, que isso a situação ficou (para ele) "absolutamente esclarecida".

"Depois o presidente Jorge Sampaio achou que as coisas não correram bem e distanciou-se daquilo que se passou a seguir, o que eu também compreendo perfeitamente, mas nunca teria havido Cimeira das Lajes se o presidente da República tivesse dito então ao primeiro-ministro 'não pode haver cimeira numa base militar portuguesa'. Nunca teria havido. Isso é óbvio, elementar", insiste.

Um chefe de Governo de malas feitas para Bruxelas

Outros dos momentos que marcaram a última década da história política nacional foi a decisão de Durão Barroso deixar a liderança do Governo de coligação, no poder há apenas dois anos, para ir para a Comissão Europeia.

Na versão da história do antigo primeiro-ministro, ele garante que, quando se preparava para ser presidente da Comissão, impôs "como condição" para sair do governo "que não houvesse dissolução da Assembleia da República". E assegura que isso lhe foi "garantido pelo (então) presidente da República, Jorge Sampaio". Barroso acredita que foi por causa da dissolução do parlamento, poucos meses depois, que se gerou a "perceção negativa" da decisão que tomou e com que muitos portugueses ficaram.

"Eu acho que parte do problema na memória portuguesa dessa minha ida para a Comissão Europeia está relacionada com isso. É que as coisas não correram bem depois. Se tivessem corrido bem, como era o meu desejo, talvez não tivesse sido tão negativa a perceção em alguns setores. Mas correram mal", aponta o antigo primeiro-ministro, em entrevista à TSF.

"Na altura, uma condição que eu tive de por foi que não houvesse dissolução da Assembleia da República. Isso foi-me garantido pelo (então) presidente da República, Jorge Sampaio", explica, salientando que "havia uma maioria parlamentar" e queria evitar que "se instalasse uma situação confusa no país".

Na altura, conta, "o Governo manteve-se com outro primeiro-ministro". "Acontece isto normalmente nas democracias europeias: quando um primeiro-ministro se demite, continua o partido", lembra, dando como exemplos o que aconteceu na Inglaterra com a mudança da chefia de governo de Tony Blair para Gordon Brown ou na Bélgica. "Acontece normalmente", refere.

Mas o plano não saiu como o também antigo líder social-democrata tinha traçado. "Mais tarde, por razões que eu agora não quero comentar, houve uma dissolução da Assembleia da República. Não esperava (isso) e não desejava, sobretudo. Mas não esperava", admite.

"Nunca pensei que tão pouco tempo depois tivesse havido, com uma maioria no parlamento, uma dissolução na Assembleia da República. Houve essa dissolução que levou também a uma mudança da maioria política no parlamento", afirma, considerando que "isso causou, sem dúvida, incompreensões e julgo que isso explica em larga medida a perceção que se manifesta em alguns setores relativamente à minha decisão".

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