Furto em Tancos. Exoneração de cinco comandantes foi "estratégia de comunicação"

Na comissão de inquérito, o coronel Ferreira Duarte, exonerado após o roubo, considerou que "houve falhas" e que cabe aos militares "assumi-las". Exonerações fizeram parte de "estratégia" de Rovisco Duarte.

O coronel Ferreira Duarte, um dos cinco comandantes que foi exonerado temporariamente na sequência do roubo de material militar em Tancos, disse, esta quinta-feira, na comissão parlamentar de inquérito ao caso, que as exonerações fizeram parte de uma "estratégia de comunicação" do antigo chefe do Estado-Maior do Exército (CEME), o general Rovisco Duarte, para "prestigiar a organização".

Questionado pelo deputado António Carlos Monteiro, do CDS-PP, e depois instado a responder pelo presidente da comissão parlamentar de inquérito, o antigo comandante do Regimento de Infantaria de Tomar - uma das unidades responsáveis por ceder efetivos para a segurança dos Paióis Nacionais de Tancos - contou aos deputados a conversa privada que teve com o ex-CEME após o assalto.

"Disse que fazia parte de uma estratégia de comunicação definida pelo então chefe do Estado-Maior do Exército e que tinha por objetivo, para não desprestigiar o Exército, mostrar isenção e clareza na postura do Exército", disse, o coronel, que acrescentou: "Pediu desculpa pelo impacto nas famílias (...) Para dar clareza e transparência entendeu que era a decisão mais adequada, por muito inconveniente e impacto que isso nos trouxesse, quer em termos psicológicos quer em termos familiares".

Após ser novamente questionado sobre as exonerações ,uma decisão do general Rovisco Duarte que motivou polémica no Exército, com dois tenentes-generais a deixarem funções, o coronel Ferreira Duarte disse aos deputados que as exonerações serviram para "dar a tal perceção de que íamos averiguar tudo o que fosse para averiguar até se chegar a conclusões", mas que seria uma "distração muito grande" a realidade de "tomar atitudes só para a imagem".

"[O ex-CEME] Disse que enquanto decorressem os inquéritos que mandou abrir permaneceríamos afastados das funções", detalhou.

Antes, o militar já tinha defendido que a exoneração tinha sido encarada com toda a naturalidade: "Quem me exonerou foi quem me nomeou. Quem acha que sou competente para me nomear para as funções também me pode exonerar". Na sequência das várias respostas, o deputado António Carlos Monteiro, do CDS-PP, questionou: "A preocupação foi resolver os problemas ou limpar a imagem".

Assalto deixou militares "magoados", mas é preciso assumir responsabilidades. Soube do caso "pelas notícias"

Nesta que foi a segunda audição no âmbito da comissão parlamentar de inquérito, o coronel Ferreira Duarte - que confessou nunca ter visitado os paióis em funções - disse ainda que o caso deixou os militares "magoados", porque "ninguém gosta de falhar".

"O furto é triste, deixa-nos magoados, porque ninguém gosta de falhar. Não é algo de que nos orgulhemos. Se houve furto, houve falhas, e temos de assumi-las. E isso está a ser feito", afirmou aos deputados o militar que esteve em funções entre outubro de 2016 e 30 de junho de 2017, a data em que foi exonerado, após o furto, sendo depois reconduzido e retomando funções no período entre 18 de julho de 2017 e 11 de outubro de 2018.

O militar defendeu também que a responsabilidade não pode ser apenas assacada a quem se encontrava no local com funções de segurança. "De quem é a responsabilidade? De quem estava a fazer segurança é sempre. Se estão sozinhos nessa responsabilidade? Provavelmente não", afirmou, garantindo que, em relação ao furto de material militar, "soube pelas notícias", sendo apenas informado "oficialmente" depois de conhecer o caso pela comunicação social.

"Teria sido contactado se, nesse dia, fosse a minha unidade a ceder militares para aquela função, mas, naquele momento, não era", justificou, dando conta que estaria representada no local a Unidade de Engenharia. Também sobre o reaparecimento do material militar e sobre os contornos dessa mesma recuperação, adianta que só soube após haver notícia da sua recuperação. "Tudo o que sei é o que sabem os senhores, sei pelas noticias. Não está na nossa esfera de capacidade de resolução", disse.

Após o assalto, acrescenta, foram tomadas medidas "Houve alteração de procedimentos através de uma diretiva do Comando Terrestre que foi imediatamente posta em prática".

Além da segurança, "outros fatores" terão sido determinantes para o assalto

Segundo o coronel Ferreira Duarte, que admitiu algumas deficiências na segurança das instalações dos Paióis Nacionais de Tancos, como falhas em fechaduras e vedações ou a ausência de videovigilância - informações que, segundo o próprio, constavam dos vários relatórios -, o assalto poderá ter ocorrido, no entanto, não apenas devido a estas falhas.

"Poderá haver outros fatores", assinalou o antigo comandante do Regimento de Infantaria n.º 15, que detalhou que as rondas realizadas pela segurança junto dos paióis aconteciam normalmente "de duas em duas horas", sendo que, no mínimo, eram feitas "uma de manhã e outra à tarde".

Quanto ao número total de efetivos dedicados à segurança do perímetro, diz não saber se "seriam 10, 20 ou 30 em permanência", mas sublinhou que oito militares estariam sempre "empenhados" nessa mesma tarefa.

A comissão de inquérito ao furto de material militar em Tancos tem previstas audições a 63 personalidades e entidades. Decorre durante 180 dias, até maio de 2019, e é prorrogável por mais 90, para que se possa chegar a conclusões.

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