"A Igreja acordou tarde." Os abusos sexuais, a pedofilia e o papel do Papa Francisco

O papel e atitude da Igreja - e em especial do Papa Francisco - foram os tópicos principais do debate na Circulatura do Quadrado.

O tema dos abusos sexuais na Igreja foi o fio condutor da discussão da edição desta semana da Circulatura do Quadrado.

O convidado especial deste programa foi D. Américo Aguiar, bispo auxiliar de Lisboa, que deu o pontapé de saída no debate colocando os pontos nos 'i': "Nós temos que, de uma vez por todas, como sociedade, dizer a todos aqueles que lhes passa pela cabeça - por maldade ou por qualquer desequilíbrio - serem agressores sexuais de menores, que a tolerância é zero e a transparência é total."

O bispo auxiliar de Lisboa revelou então que tem acompanhado vários casos pelo mundo fora, lendo alguns relatos de vítimas e confessa "a raiva e revolta" que tal o faz sentir: "Como é que é possível termos, como sociedade, e a igreja de um modo especial, sido ninho de uma situação tão violenta e de um crime tão hediondo?"

Pacheco Pereira pediu então que se virassem agulhas para a origem do problema, reforçando que é preciso perceber se ele é "conjuntural ou estrutural".

"Estamos perante um abuso que surgiu na hierarquia católica de muitos países, principalmente quando controlavam colégios, coros nas igrejas, e ainda há o problema dos escuteiros", explica. Pacheco Pereira reforça que é necessário perceber se isso se deve "a uma anomalia que surgiu nos últimos tempos" - e a razão do seu surgimento - e até que ponto "a moral sexual da Igreja nos dias de hoje é um fator nestes abusos".

O antigo deputado social-democrata defende mesmo que "há uma relação entre a moral sexual da Igreja e a sua evolução com os tempos, a composição dos padres e das freiras, que tem a ver com estes fenómenos. Não são a-históricos. Têm a ver com a forma como a Igreja lida, há muito tempo e de forma complicada, com a sexualidade".

Pacheco Pereira evoca o exemplo de Santo Agostinho e "o dilema enorme" que tinha para com a sua sexualidade e a atitude de São Paulo perante as igrejas primitivas. Esse passado "moldou a moral sexual que afasta as mulheres da Igreja e cria uma tensão à volta do celibato que é evidente que se manifestas, em muitos casos, por via homossexual. Mas também há muita violência sobre mulheres e raparigas, o problema não é apenas a pedofilia, é também o do abuso sexual", relembra.

Lobo Xavier defende que "esta dimensão e este horror exigem uma transparência total" e que interessam, nestes assuntos, três dimensões: "Prevenção, perseguição e punição e ressarcimento das vítimas. A Igreja acordou tarde."

"Não tenho ouvido psicólogos e estudiosos dizendo que acontece por uma espécie de escape e que não se tem outras alternativas de relacionamento sexual", defendeu o advogado, em resposta aos argumentos de Pacheco Pereira. "Não é um problema de moral sexual, é de falta de moral sexual. Não consigo culpar a Igreja pela sua moral sexual na matéria concreta da pedofilia. O que esses padres e bispos não tinham era moral nenhuma, nem sexual nem nenhuma", completou.

O socialista Jorge Coelho centro o debate numa das figuras que mais ativa tem sido no que diz respeito ao combate à pedofilia e aos abusos sexuais na Igreja: o Papa Francisco. "Antes da existência dele, a Igreja e os católicos tinham princípios mas não se ouviam a dizer nada. Tudo isto já existia, com certeza, no mundo e em Portugal, mas os católicos conviviam bem com isso. Ou então, para não criarem maiores problemas, habituaram-se a resolverem as coisas no silêncio total, sem responsabilização de ninguém."

O antigo ministro elogia o chefe da Igreja Católica, que vê como uma figura que "é de tal maneira transformadora e positiva, que ele não se limitou a fazer uma intervenção sobre isto só uma vez. Ele não para de falar nisto porque tem a certeza, e conhece bem a Igreja, que continuam lá aqueles que vão fazer tudo para que não se faça nada", afirmou Jorge Coelho, referindo-se aos líderes de "uma cultura que nem é a favor da transparência nem de levar estes assuntos até ao fim."

Sobre a atitude da Igreja, Pacheco Pereira é pragmático: "Não me passa pela cabeça que ninguém tivesse dado por ela nos últimos 10, 20 ou 30 anos em que isso se estava a passar. É óbvio que as pessoas sabiam, é óbvio que conheciam múltiplos casos, é óbvio que a Igreja protegeu esses silêncios ou então as pessoas tinham funções de autoridade que permitiam a continuação desses casos", defendeu.

Como conclusão, D. Américo Aguiar lembra que a prioridade deve ser dada às vítimas: "Quando passamos da teoria para a realidade da vida de uma pessoa que sofreu isto em criança, não podemos dormir descansados enquanto, como sociedade, não fizermos tudo o que esteja ao nosso alcance para que ninguém caia na tentação ou possibilidade de o fazer novamente e continue impune."

O 25 de abril

No lançamento daquele que se prevê ser um dia de discursos e intervenções políticas, D. Américo Aguiar deixou o desejo de que os políticos "ajudassem todos, como sociedade, a terem um caminho claro para percorrer."

Pacheco Pereira alertou então que "a democracia, se não a defendemos mais ativamente, do ponto de vista cultural, político, sociológico e económico, está em risco".

Lobo Xavier, por seu lado, sabe o que não quer ouvir: que "falta cumprir abril". O advogado revela que detesta "esse tipo de linguagem" e que, no nosso tempo, o que falta é "defender a democracia".

Jorge Coelho fala no privilégio da sua geração, que conseguiu "alcançar a vitória". Se está consolidado? "Não está." O socialista destaca os valores centrais do 25 de abril e, lembrando o terrorismo e violência a que se assite em todo o mundo, fala numa "regressão de coisas pelas quais lutou e continua a lutar muita gente, para ter uma sociedade melhor. É preciso estar muito atento para que isto não volta para trás", alertou.

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