Atira-te ao Rio e diz que t'empurrarem

Rui Rio encerra o 37.º Congresso do PSD nesta tarde de domingo, mas este fim de semana, no Centro de Congressos de Lisboa, prometeu algumas flautas desafinadas. E certezas.

O verbo "amolar", diz aqui um dicionário online, significa afiar no rebolo, amolgar, lograr e ficar pensando, assim mesmo, no gerúndio, para aquele português com açúcar a escorrer alegrar a alma. O homem da bicicleta deste 37.º Congresso do PSD, aquele que faz o som que promete as facas do bairro bem afiadinhas e em dia, é o senhor Luís. E a cantiga tem uns quantos amoladores seguidores...

O pontapé de saída do tom torcido, como se fossem post-its invisíveis a cantarolar por aí, foi dado por Ribau Esteves, o presidente da CM de Aveiro, cuja intervenção terá merecido a colocação de caneleiras para aqueles mais suscetíveis com as questões de género. É que mal chegou ao Centro de Congressos de Lisboa, Ribau Esteves disse logo, em alto e bom som, com uma flauta maior do que a do senhor do vídeo acima, "o PSD não pode ser a namorada do PS". Bom dia.

Duarte Freitas, presidente do PSD Açores, conseguiu numa só frase tirar o chapéu ao ex-líder do partido e agarrar a ponta do tapete de Rio: "Salvou o país contra a bancarrota do Partido Socialista, mas, também é preciso dizê-lo, contra alguns dos que agora pedem o melhor PSD e não foram solidários com o dr. Pedro Passos Coelho".

Com a mesma luminosidade, Miguel Pinto Luz, o autor da tal carta aberta a Rui Rio, onde lhe pedia que não vestisse a pele de "Messias" e colocou a fasquia bem alta a fazer lembrar um treinador ou outro de formação -- "Sábado há três resultados possíveis: ganhar, ganhar ou ganhar" --, censurou o unanimismo do congresso.

"Eu gosto de congressos abertos, em que haja confronto de ideias", dizia Pinto Luz no sábado. "É isso que também quis dizer com a carta, que se pode intitular de provocadora, mas não foi essa a intenção. Foi uma intenção de clarificação nesta dialética positiva que os congressos devem ter e que este se calhar não está a ter tanto..."

Outro assunto que gerou algum unanimismo, embora aqui e ali menos gritado aos sete ventos, foi o da nomeação de Elina Fraga para vice-presidente, algo que Paula Teixeira da Cruz considerou "uma traição". Duarte Marques, no Twitter, já depois da uma da manhã de sábado, desabafou:

Vamos às flautas maiores? Comecemos por Hugo Soares, o ainda líder da bancada parlamentar que terá sucessor na próxima quinta-feira, 22 de fevereiro. Ao lamentar que alguém saiu da sua função está, quer diga quer não diga, a responsabilizar os tempos de mudança. "Fiquei sobretudo com pena, Luís Montenegro era dos principais ativos do PSD", disse no palco, sem grande alarido daqueles que o rodeavam. "Não faço comparação entre deputados, mas creio que poderei dizer, e ninguém levará a mal, que é entre nós um dos melhores. (...) É uma perda para o partido. É uma perda para o partido no Parlamento."

Numa coisa Hugo Soares e Rui Rio convergiram, uma discussão motivada por Luís Montenegro (ou senhor Luís nesta história) em declarações à Renascença em dezembro: o referendo sobre a eutanásia. Apesar disso, voltou a condicionar a caminhada, dizendo que não pode chegar a acordo com PS e que deverá desde já, mesmo sem conhecer o documento, rejeitar o Orçamento do Estado para 2019. Isto para os partidos de esquerda não se tornarem inúteis e escaparem à responsabilização, acabando por assobiar para o lado na hora h.

"Alguém acha que este PS vai apresentar um Orçamento do Estado em que acreditamos?", questionou na sua intervenção no sábado. "Defendemos na oposição aquilo que fizemos quando tirámos Portugal da pré-bancarrota, quando pusemos o país a crescer", garantiu, puxando os galões da anterior liderança, como quem diz que se faz o que for preciso, até ser impopular.

Falta Santana Lopes, claro. Se o título foi quase, quase plagiado daquela canção (se o novo líder diz "regime", podemos escrever canção) dos Íris, a frase a seguir também merece citação: "Beija-me na boca e chama-me Tarzan". Santana Lopes foi, principalmente para quem não faz da política o seu dia-a-dia, uma espécie de toma lá dá cá.

Vamos lá. O candidato derrotado à corrida do partido pediu união, disse-o inúmeras vezes, e até deu uma palmada aos que andam agora a condicionar a sua futura governação. "Não gostei de ver tentarem condicionar-te mal foste eleito e mesmo antes de tomares posse aqui neste congresso. Tu ganhaste, tens todo o direito a executar esta estratégia", garantiu no sábado, chamando a maneira de fazer as coisas de "chico-espertismo". Claro que também deu ares de chamar a esses "calculistas" por não terem entrado na luta, que se calcula perdida. O senhor Luís, já lá vamos, deixou bem claro: "Vou andar por aqui".

Santana, que disse que a missão será como "subir ao Evereste", prometeu ainda dar ao novo líder "a unidade e convergência" que alguns dos seus apoiantes "nunca deram" a Passos Coelho. Lá está, beijando na boca deu um suave empurrão na maré que empurra Rio: a sua gente.

Finalmente, o senhor Luís. Ou Luís Montenegro. O ex-líder da bancada parlamentar do PSD surpreendeu ao anunciar a saída do Parlamento, decisão essa que tomou "sozinho", garantiu. Mas isto é aquela coisa de entrar em casa às quatro da manhã devagarinho para não acordar ninguém e bater com a porta com estrondo, certo?

"Conhecem a minha convicção e a minha determinação. Se for preciso estar cá, eu cá estarei, para o que der e vier, sem receio de nada e sem estar por conta de ninguém, sou totalmente livre", afiançou.

"Quem achava que andava alguém a espetar facas nas costa de alguém", disse à TSF depois da intervenção, "esses enganaram-se". Afinal, "disse exatamente tudo o que queria, quando queria e como queria". Ainda assim, o senhor Luís deixou uma certeza, enquanto coloca o descanso da bicicleta: "Vou andar por aqui".

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