China "está a tentar compatibilizar o espírito patriótico e a liberdade religiosa"

O Presidente da República visitou esta segunda-feira o templo Budista dos Lamas em Pequim. E quis saber como é que a política pode "casar" com a liberdade religiosa. A resposta do líder do templo não foi clara, mas foi suficiente para Marcelo tirar conclusões.

Se há político treinado na diplomacia, é Marcelo Rebelo de Sousa. Nada do que faz, e como faz, é por acaso. Mesmo quando parece estar em situações com um grande potencial de embaraço.

O primeiro dia de visita oficial à China é também o dia em que se encontra formalmente com o primeiro-ministro e com o Presidente da República do país. Mas Marcelo fez questão de, antes de chegar ao Palácio do Povo, passar por um templo budista. Sabendo o Presidente, como o resto do mundo, a difícil convivência que o regime chinês ainda hoje tem com a liberdade religiosa.

À chegada ao templo dos Lamas, o Presidente da República é recebido com um lenço - que lhe é imediatamente colocado ao pescoço - pelo monge responsável, um lama, figura proeminente que será um dos responsáveis pela escolha do próximo Dalai-Lama - chefe de Estado e líder espiritual do Tibete.

Ao longo do caminho, até aos vários templos - e são muitos -, Marcelo foi fazendo parar várias vezes a comitiva para ir fazendo perguntas ao monge. Começou por contar que já tinha ido com a filha, várias vezes, a cerimónias budistas. Mostrou-se interessado em saber o que estudam os monges. E foi sempre levando a conversa para o assunto verdadeiramente sensível: "Nesse percurso, que é de purificação pessoal, a liberdade de cada um é fundamental. Como é que se liga essa liberdade com o objetivo da unificação política global? Do povo e, neste caso, da unificação chinesa?" O monge fixava com interesse os olhos do Presidente, enquanto aguardava o resto da tradução para mandarim. Quando teve que responder, claramente não quis atirar-se para fora de pé. Do monge tibetano, o Presidente limitou-se ouvir que "só através da purificação espiritual é que se pode chegar à unificação do Estado e à unificação política."

Marcelo já tinha o suficiente para responder às perguntas dos jornalistas, que queriam saber como é que o Presidente de Portugal olha para a realidade chinesa neste campo. "Há aqui uma tentativa de compatibilizar o espírito patriótico com a liberdade religiosa", sublinha Marcelo, que podia ter-se ficado por aqui, mas fez questão de ir mais longe. "Para nós, portugueses, é uma evidência - essa compatibilização - porque está na Constituição, mas foi interessante ouvir aqui dizer que se pode ser patriota e respeitar-se a liberdade de religião." Palavras bem medidas, para não criar suscetibilidades diplomáticas, mas suficientemente fortes para traçar uma fronteira entre aquilo que Marcelo Rebelo de Sousa defende e aquela que é a realidade da China.

Cumprir a tradição em Tiananmen

Antes do templo, Marcelo Rebelo de Sousa cumpriu com o ritual da deposição de uma coroa de flores num dos locais mais simbólicos para um país. No caso da China, é a praça Tiananmen, o local onde há 20 anos o regime carregou sobre milhares de estudantes em protesto.

Ao som do hino nacional, o Presidente da República depôs as flores no monumento aos heróis do povo, da mesma forma, lembra Marcelo, que "quando o Presidente Xi Jiping esteve em Portugal" também prestou homenagem "àquele que cantou os feitos da epopeia imperial e colonial portuguesa." O que não significa que o Presidente chinês subscreva "necessariamente todos esses feitos e a sua projeção histórica. É aquilo que se faz, normalmente, em termos protocolares e simbólicos quando se visita um Estado".

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