Presidente da República

Dívida pública separa o "exemplo" português de uma Grécia em "stress"

Em Atenas, o chefe de Estado admitiu semelhanças entre os programas de ajustamento dos dois países, assinalando, contudo, que, a dívida pública grega "exige uma negociação mais atenta".

A saída da Grécia do programa de assistência financeira, que esta prevista para o verão, sido um tema incontornável durante a visita de Estado que o presidente da República faz ao território helénico. Mas, se entre os processos grego e português há "muitas semelhanças", também existem diferenças que levam o "otimista" Marcelo Rebelo de Sousa a separar as águas e a assinalar que o problema com que tem de lidar o Governo liderado por Alexis Tsipras pode ser um pouco mais complicado do que aquele com que lidou o Executivo liderado por Pedro Passos Coelho.

Em Atenas, num dia marcado por vários encontros ao mais alto nível - e em que o assunto esteve em destaque -, o chefe de Estado fez notar, por isso, que, no caso grego, entre "outras questões mais complexas", há uma "dívida pública muito mais elevada" do que no caso português. "A questão porventura mais diversa da nossa situação e que exige uma negociação mais atenta é, porventura, a da dívida pública. Quer dizer, como acomodar, no pós-saída, a realidade da dívida pública", afirmou Marcelo, na capital grega, onde, num tom empático, teve oportunidade de testemunhar o clima de ansiedade que, até ao momento da decisão, que se prevê para o mês de junho, se vive entre os mais altos decisores do país.

"Vários responsáveis me disseram que estão com um stress que antecede esse momento, e nós percebemos um pouco isso", revelou o presidente da República, no final de um breve passeio pelas ruas de Atenas, onde - depois de parar num pequeno quiosque e comprar um cachecol de futebol que disse ser para o neto -, puxando a fita atrás, lembrou o ano de 2014 e a "discussão" sobre que tipo se saída teria Portugal do programa de assistência financeira: "O stress, primeiro, sobre como é que vai ser a saída e, depois, a seguir à saída".

Quanto à Grécia, Marcelo prefere não avançar com um vaticínio, sublinhando apenas que este é um assunto que "está a ser tratado com uma perspetiva muito positiva", pelo Eurogrupo e pelo seu presidente, o ministro Mário Centeno. Mas, se do lado português, o chefe de Estado se coloca à margem da discussão sobre o modelo escolhido para concluir o processo, em Atenas, o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, aproveitou o curto encontro com Marcelo Rebelo de Sousa para apontar Portugal como exemplo de "esperança" para o Governo grego: "Portugal é um exemplo positivo, porque conseguiu sair da aventura do programa de assistência mais cedo" do que a Grécia, disse, sublinhando que "isso constitui um precedente" que dá "esperança" para ultrapassar a crise.

José Sena Goulão/LUSA

Marcelo aproveita "honoris causa" para vincar posições sobre crise migratória e populismos

Na capital grega, o presidente da República foi agraciado com o doutoramento "honoris causa" pela Universidade Nacional de Atenas, numa cerimónia em que alguns dos docentes - incluindo o "amigo" e "mestre" António Pantelis - passaram em revista o percurso de Marcelo, destacando-o como alguém que "luta pela justiça e pela democracia". E, durante a intervenção que proferiu, ao invés de uma vertente mais académica, o chefe de Estado português insistiu nas questões da crise financeira e da crise migratória.

Neste ponto, e na véspera da visita a um campo de refugiados em Tebas Marcelo, que tem defendido o "exemplo" grego no acolhimento de refugiados e migrantes, lembrou, aludindo aos perigos dos "populismos", que as sociedades estão hoje "confrontadas com movimentos que disputam o lugar do saber e da ciência", mas que foi a Grécia que "deu uma lição ao mundo", promovendo o "debate que vence o acantonamento das ideias".