Luís Montenegro trouxe a faca afiada, espetou-a...e torceu-a

No Congresso do PSD, o antigo líder parlamentar anunciou a saída do parlamento, prometeu voltar à luta para a liderança do partido e, perante os militantes, não poupou Rui Rio.

A intervenção de Luís Montenegro no 37.º Congresso Nacional do PSD era uma das mais aguardadas e, se alguém tinha dúvidas de que o ex-líder parlamentar seria capaz de captar atenções e fazer levantar muitos dos congressistas, o discurso - um dia depois de completar 45 anos - provou que Montenegro, o homem que chegou a ser falado para disputar a liderança do partido, está politicamente vivo e que está a preparar terreno para regressar em breve.

Para já, anuncia um adeus, assinalando que vai deixar o parlamento a 5 de abril, ou seja, exatamente 16 anos depois de ter tomado posse como deputado. Mas, este não será, por certo, um 'até sempre', apenas um 'até já' de quem, no Congresso Nacional que consagra Rui Rio, promete ficar atento e entrar em campo a qualquer minuto.

"Conhecem a minha convicção e a minha determinação, se for preciso estar cá, eu cá estarei, para o que der e vier, sem receio de nada e sem estar por conta de ninguém, sou totalmente livre", afirmou, deixando, no entanto, um aviso para quem fica aos comandos do PSD: "Desta vez decidi não, se algum dia entender dizer sim, já sabem, eu não vou pedir licença a ninguém".

Num discurso em que olhou nos olhos o novo líder, Luís Montenegro não lamentou não ter avançado, dizendo que "agora, esta hora é a hora de Rui Rio, a hora que ele conquistou" e que, por isso, deve ter todo o apoio dos social-democratas, mas, o ex-líder parlamentar não perdeu tempo a avançar com mais algumas ressalvas e mensagens para o novo líder do PSD.

"Não deixe que o PSD se transforme no grupo dos amigos do Rui Rio ou na agremiação dos interesses do Rui Rio. Eu quero dizer-lhe que confio em si para isso, eu sei que se vai afastar da 'intrigalhada' e da mesquinhez política e que vai avançar sem medo da sombra", acrescentou Montenegro, que salienta: "A sombra só incomoda os fracos, mas eu sei que Rui Rio é forte. Eu confio em si", disse.

Rui Rio, o homem que esteve num "cadeirão de resguardo" entre "desejos alternantes"

Mas, no Centro de Congressos de Lisboa, além dos avisos foram as críticas que levaram a um tom muito mais inflamado quando se tratou de falar do passado de Rui Rio, que Montenegro acusa de ter estado "dez anos à espera" para avançar "entre desejos alternantes de ser primeiro-ministro e presidente da República".

E, sobre a sua ausência na luta com Santana Lopes e Rui Rio, o ex-líder parlamentar prosseguiu, sem receio de eventuais apupos por parte dos congressistas.

"Acusar de falta de coragem alguém que passou os últimos anos, não no sofá ou numa cadeira de resguardo da refrega política nacional, mas a dar o corpo às balas, a defender com unhas e dentes o partido e garantido a coesão do PSD e do grupo parlamentar, acusar alguém que fez isso de falta de coragem é inusitado e injusto", exclamou.

Porém, as provocações ao líder não se ficaram por aqui e, sublinhando que a decisão de não avançar para a liderança do PSD foi "um exercício de liberdade", Luís Montenegro explicou: "Para aqueles que lhe querem colar o selo de falta de coragem, que o façam. Eu fico com esse selo. Há aí alguém que deve ter a caderneta cheia e que tem mais selos do que eu. Em matéria de coragem e autenticidade não levo lições de ninguém".

Montenegro não quer o "lodo" de um PSD a servir de "bengala" ao PS

No Centro de Congressos de Lisboa, muitos foram os ataques de Montenegro a atual solução governativa, mas, se 'para bom entendedor meia palavra basta', as críticas serviram também, de forma mais ou menos subliminar, para deixar clara a posição do social-democrata face a qualquer possibilidade de um bloco central - que disse Rui Rio, é coisa que "não existe nem existirá".

"O PCP está onde sempre esteve, nos nossos antípodas; o Bloco de Esquerda está onde sempre esteve, nos nossos antípodas. O PS está onde nunca tinha estado: pertíssimo do PCP e do BE", disse, alertando ainda para o perigoso "lodo" em que poderia ser transformado um PSD que servisse de "bengala" do PS. "O país não precisa de um bloco central. O PS capitulou nos braços da esquerda radical. Não, o PSD não pode capitular nos braços deste PS".

E, sem dar tréguas, prosseguiu, afirmando que "imaginar que sejamos um apêndice destes socialistas-bloquistas que mandam no país é para mim um suicídio político", estabelecendo ainda uma meta para o novo líder: "Quero ser muito claro, Rui Rio e o PSD só podem ter um cenário nas próximas eleições legislativas, que é ganhar com uma maioria sem socialistas nem bloquistas".

Continuar a ler