O triunfo dos porcos portugueses na China e outras histórias de sucesso

A China é o maior consumidor de carne de porco do mundo. Mas, durante 10 anos, as empresas portuguesas não conseguiram lá entrar. Agora que entraram, confirma-se que este é, verdadeiramente, o negócio da China.

Que a China é o país mais populoso do mundo, provavelmente já sabia. E que num país onde vive muita gente há muita boca para alimentar, também é de dedução fácil. O que provavelmente não sabia é que os chineses são "loucos" por carne de porco. Tão "loucos" que conseguem ser, simultaneamente, os maiores consumidores, importadores e exportadores mundiais deste tipo de carne.

Perante este quadro, não é difícil de imaginar que qualquer produtor de carne de porco sonha em exportar para a China. Por pequena que seja a província, ela terá sempre mais pessoas do que Portugal. Nuno Correia, administrador executivo da Grupalto, andava há anos a tentar entrar no mercado chinês. Ele e vários concorrentes, mas a verdade é que nenhuma empresa portuguesa tinha sucesso. "Era a política", diz em jeito de desabafo e com um sorriso no rosto, numa conversa descontraída com os jornalistas portugueses que por estes dias estão em Pequim a acompanhar a visita do Presidente da República.

"A política", na verdade, tem duas leituras, ambas verdadeiras. Por um lado, há as especificidades da China que obriga qualquer país que queira exportar para lá a cumprir, pelo menos, dois requisitos: quantidade - o que ajuda a explicar por que é que Espanha, Alemanha, EUA e Brasil eram os grandes fornecedores de carne de porco para este país - e, não menos importante, a falar chinês. A segunda leitura que se pode fazer do problema "político" tem a ver com a forma como o Estado português foi, ao longo dos anos, tratando este assunto e que só mudou recentemente.

Nuno Correia conta que os produtores de carne de porco andaram "10 anos a tentar entrar neste mercado" e que, durante todos estes anos, houve "sucessivos governos que tentaram e não conseguiram" porque "nunca se juntaram ao setor privado". Uma realidade que mudou, diz o empresário, com o atual governo " que trabalhou em equipa. Nós percebemos umas coisas e o governo percebe outras e, quando se trabalha em equipa, chegamos a conclusões mais certas".

Conclusões certas, ajudam a atacar os problemas no sítio certo. E um dos grandes problemas dos produtores de carne de porco em Portugal, tinha precisamente a ver com escala: "tivemos que ir à procura da dimensão porque, para os chineses, se não tivermos capacidade de fornecimento, nem sequer querem começar o negócio", explica Nuno Correia. A única forma de ganhar essa dimensão era os produtores unirem-se. E foi isso que fizeram. Doze empresas criaram o Agrupamento de Produtores Agropecuários e, juntas, conseguiram a escala de que precisavam para começar a conversar com os chineses sobre o fornecimento de carne de porco.

"Estamos a exportar há cerca de seis meses, para várias províncias", conta orgulhoso o empresário, que neste momento lidera um projeto de exportação para cerca de 100 milhões de pessoas. As coisas estão a correr tão bem, que de Portugal saem, todas as semanas, 10 mil porcos, congelados e transportados por via marítima até à China que "demoram 35 dias a chegar", explica o empresário. Para aqui chegar, foi ainda preciso encontrar um parceiro na China, que no caso dos produtores de carne de porco foi "um grupo forte, sem o qual teria sido muito difícil".

A ironia deste negócio é que Portugal é deficitário em carne de porco. Nuno Correia lembra que "nós importamos cerca de 20% do que necessitamos para consumir" e que desses 20%, "99% vêm de Espanha". Uma realidade que "não faz qualquer sentido", conclui o empresário, já que Portugal está "a deixar os empregos em Espanha em vez de produzirmos cá". É também por isso que a exportação de carne de porco é tão importante, explica: "Estando no mercado de exportação, se os chineses agora nos pedem cerca de 1000 toneladas por semana de carne - e querem duplicar no próximo ano - nós temos que crescer para abastecer nestes mercados", o que significa crescer também "em Portugal e reduzir a nossa dependência de carne de porco".

O administrador da Grupalto adianta que já está a ser delineada "uma estratégia de crescimento para os próximos anos", que se vai traduzir em "milhares de postos de trabalho". Neste momento, o grupo tem um volume de negócios de 100 milhões de euros por ano, que espera duplicar em 2020.

A cerveja da Madeira e o cartel nos transportes

Se os chineses gostam de porco, não gostam menos de cerveja. Apesar de gostarem dela à temperatura ambiente e terem a mania de a beber em pequenas doses, como se fossem "lambretas" em garrafa. Este foi um dos aspetos que mais surpreendeu Miguel Sousa, presidente da empresa Cervejas da Madeira, quando foi abordado por uma empresa chinesa, para começar a exportar para uma província da China.

Os resultados, desde 2015, foram bem visíveis. A Cervejas da Madeira aumentou "a exportação em 20%" e, nas palavras de Miguel Sousa, este mercado "tem funcionado lindamente, quer nos pagamentos quer em todos os compromissos que foram assumidos". O ano passado a empresa vendeu quatro milhões de litros de cerveja para a China, que correspondem a cinco milhões de euros.

Problemas, só mesmo do lado de cá e com a logística. O presidente da empresa queixa-se dos elevados custos do transporte e dá um exemplo: "Pago por um contentor de cerveja do Funchal para Lisboa 1800 euros e de Lisboa para china, 600 euros. Alguma coisa está errada", conclui. Até porque, se em cima destas contas Miguel Sousa colocar o custo da matéria-prima que tem que importar para a Madeira, os custos disparam ainda mais. "É algo absurdo. Os transportes em Portugal estão completamente desgovernados, cada um faz o que quer e há acordos entre os transportadores que é impossível furar", acusa. Entendam-se estes "acordos", explica o empresário, como uma metáfora para "cartel".

Para crescer na China é preciso deixar crescer os eucaliptos

A Caima é uma empresa de pasta e papel que, na China, tem no setor têxtil os principais clientes? Confuso? "A decisão de transformar a Caima numa empresa produtora de pasta solúvel significa que, em vez de produzir pasta para produzir papel, passa a produzir uma matéria-prima que é utilizada na industria têxtil, que é a viscose", explica Dolores Ferreira, administrador executivo da empresa do grupo Altri.

A Caima chegou à China há mais de sete anos: "Demorou pouco tempo a entrar no mercado", recorda Dolores Ferreira, "começámos a fazer testes em 2011, em 2012 começámos a vender na China e as coisas correram muito bem porque naquela altura havia falta de pasta solúvel". Hoje, quase toda a pasta que a Caima produz é vendida na China, o que representa um volume de vendas superior a 70 milhões de euros por ano.

Instalada em Constança, a Caima, a empresa percebeu que alterar o modelo de negócio - de pasta de papel para viscose - implicava mudar também o mercado: "A pasta de papel é toda vendida na Europa, mas, no caso da Viscose, a industria têxtil está na Ásia e a China é o maior mercado", explica Dolores Ferreira, concluindo que "ir para a pasta solúvel e não vir para a China não fazia sentido".

Os conselhos às empresas portuguesas que queiram entrar na China, são os mesmos: "É preciso ter quantidade suficiente e depois é preciso arranjar o parceiro", explica o empresário, sublinhando que "tem que ser um parceiro que conheça a China e tenha contactos". Até porque, a língua pode ser um entrave, e dos grandes, já que "os chineses continuam a negociar em chinês. Falam algum inglês, mas não falam muito e é preciso ter alguém que traduza e em quem tenhamos confiança no que está a fazer".

Dolores Ferreira aponta a estabilidade como um dos fatores mais importantes na relação comercial com a China, mas claro, que "tudo isto dá trabalho e sem trabalho não se consegue nada". Crescer, está nos planos da empresa, mas, no caso da Caima, o maior obstáculo está em Portugal: "A indústria de pasta vive de uma coisa que se chama eucalipto e com a guerra toda que se faz ao eucalipto, acho que não vai haver grande crescimento. A limitação está do nosso lado, de Portugal".

Convidado pelo Presidente da República para o jantar com empresários exportadores, o administrador da Caima não tem dúvidas de que "estas visitas que o Presidente faz são muito importantes para garantir que o contexto político é saudável" e recorda outras experiências, de outras empresas, noutros países, "como Angola", onde esse contexto político não era tão saudável, para dizer que é preciso ter muito cuidado com o risco político e tudo o que se puder fazer para diminuir o risco político, é bom."

Marcelo gostou de estar com os chineses, mas prefere os portugueses

No terceiro dia de visita à China, Marcelo fez questão de jantar com estes e outros empresários portugueses, que exportam para a China. Para lhes "agradecer o que têm feito pela afirmação económica de Portugal na China", mas também para lhes dizer que "foi muito importante o jantar de ontem - com investidores chineses em Portugal - mas é mais importante o jantar de hoje. É muito importante ter empresários chineses em Portugal, mas é muito mais importante ter empresários portugueses na China.

Patrocinado

Apoio de

Patrocinado

Apoio de