Tancos. Assessor entregou "documento" sobre encenação no gabinete de Costa

No parlamento, o Major-General Tiago Vasconcelos disse, no entanto, que o memorando era pouco credível e que o primeiro-ministro nada soube sobre uma"encenação". Tancos nunca foi assunto entre Costa e assessor

É mais um assessor militar do primeiro-ministro a garantir na comissão parlamentar de inquérito que nunca falou com António Costa sobre o caso do roubo de armas ocorrido em 2017. "Nunca. Jamais falei sobre essas situações específicas", disse aos deputados o Major-General Tiago Vasconcelos, que, à data dos acontecimentos, ocupava o cargo de Adjunto para o Planeamento e Coordenação do Estado-Maior-General das Forças Armadas.

Uma semana depois de o antigo assessor militar do primeiro-ministro, o vice-almirante José Monteiro Montenegro, ter admitido , no parlamento, que nunca teve "qualquer tipo de conversa" com António Costa sobre Tancos, também o atual responsável por aconselhar o chefe do Governo na área militar garante que o tema nunca foi discutido com António Costa. "Não foi assunto de que [eu e o primeiro-ministro] tratássemos", adiantou, referindo-se ao momento em que passou a exercer as funções de assessor militar, em maio de 2018.

"Nessa altura, não havia nada que me parecesse que o primeiro-ministro pudesse fazer, a não ser esperar que a investigação estivesse concluída e que os culpados fossem apanhados", assinalou o Major-General que, na audição frisou por diversas vezes que, no momento do furto, não se encontrava no cargo de assessor militar, sublinhando mesmo um desconhecimento pessoal sobre as instalações onde ocorreu o furto.

"Não tinha qualquer tipo de tutela sobre os Paióis Nacionais de Tancos. De resto, é uma infraestrutura à qual nunca fui", disse.

Já no final da audição, aos deputados, o Major-General Tiago Vasconcelos adiantou, contudo, que recebeu, por parte do então chefe de gabinete do ministro da Defesa, tenente-general Martins Pereira, um "documento" , ou seja, uma cópia do "tal memorando" sobre a encenação em torno da recuperação do material militar, e que o documento foi entregue pelo próprio no gabinete do primeiro-ministro, António Costa.

"Entreguei o papel ao senhor chefe de gabinete [Francisco André], mas não tinha qualquer expectativa de ter um 'feedback' qualquer. O papel estava ali", disse, salientando, no entanto, que, no seu entender, o documento que lhe foi entregue também não merecia grande crédito. "Se me chegasse anonimamente, não atribuía credibilidade nenhum àquilo. Sem timbre, sem data. A própria narrativa tem aspetos incoerentes, lendo o documento a frio, sem enquadramento", esclareceu.

Assessor militar garante que António Costa não sabia de qualquer "encenação"

Na comissão, o atual assessor militar de António Costa defendeu que, apesar de ter recebido o "memorando" das mãos do então chefe de gabinete do ministro da Defesa, tenente-general Martins Pereira, ao ler o documento não é clara qualquer informação sobre uma alegada "encenação" da recuperação das armas roubadas dos Paióis Nacionais: "Não se vê aqui a evidência de qualquer crime".

Aos deputados, o Major-General disse ainda estar certo de que António Costa nada sabia sobre uma eventual encenação do "achamento" do material militar que tinha sido furtado dos Paióis Nacionais de Tancos, em junho de 2017. "A noção que eu tenho é quase uma certeza absoluta de que o senhor primeiro-ministro não sabia de encenação nenhuma", afirmou.

Segundo o Major-General Tiago Vasconcelos, o documento foi-lhe entregue no dia 12 de outubro do ano passado, o mesmo dia em que o fez chegar ao chefe de gabinete do primeiro-ministro, e também o dia em que no Azeredo Lopes apresentou a sua demissão do cargo de ministro da Defesa Nacional.

Durante a audição, o assessor militar deu ainda conta de que só soube do caso do roubo de material militar pela comunicação social. "Já não sei se soube pela televisão ou pelos jornais. E, se não foi diretamente pela comunicação social foi indiretamente", afirmou, acrescentando que o mesmo aconteceu no momento em que as armas foram recuperadas. "Estava a trabalhar, por isso, foi provavelmente algum colaborador que me veio dizer depois de ter sido transmitido pela comunicação social".

Ex-chefe de gabinete de Azeredo Lopes não falou de "memorando" à sucessora

Após a audição do assessor militar do primeiro-ministro, os deputados ouviram também Maria João Mendes, antiga chefe de gabinete do ex-ministro da Defesa, Azeredo Lopes, que, em resposta aos deputados, defendeu que, apesar de ter pedido a demissão no mesmo dia em que o gabinete do primeiro-ministro recebeu o "memorando" sobre a "encenação", o então ministro da Defesa saiu para proteger a estrutura militar.

"Conhecendo eu o senhor ministro, sei que as preocupações dele que estão expressas na carta de demissão eram as de salvaguardar a instituição militar, porque o avolumar de situações estava a prejudicar as Forças Armadas", disse a antiga chefe de gabinete.

Questionada pelo deputado Telmo Correia, do CDS-PP, que quis saber se Maria João Mendes perguntou ao antecessor, o tenente-general Martins Pereira, sobre o "memorando", a ex-assessora de Azeredo Lopes confirmou, mas salientou que a resposta foi negativa. "Contactei com o tenente-general Martins Pereira e perguntei se tinha sido entregue o documento de que se falava. Ele disse que não tinha dado entrada qualquer documento", afirmou.

A comissão parlamentar de inquérito sobre as consequências e responsabilidades políticas do furto do material militar ocorrido em Tancos vai decorrer até ao mês de junho, depois de o parlamento ter decidido prolongar os trabalhos por mais 90 dias.

O ex-ministro da Defesa Nacional, Azeredo Lopes, que se demitiu na sequência do caso ocorrido no final de junho de 2017, será o último a ser ouvido pelos deputados, na comissão, no dia 7 de maio.

Notícia atualizada às 19h06

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